Com a nova concessão da Malha Sul em preparação, Curitiba tenta incluir os contornos ferroviários Leste e Oeste no futuro contrato e abre uma discussão que envolve logística, mobilidade, segurança e requalificação urbana.
*Fotos: Pedro Ribas/SECOM
A nova concessão da Malha Sul abriu uma oportunidade para Curitiba enfrentar um problema criado pela expansão da cidade: a convivência entre uma ferrovia destinada ao transporte de cargas e uma área urbana que cresceu ao seu redor. Durante a audiência pública realizada pela ANTT em Curitiba, em 27 de julho, a retirada dos trens de carga da área urbana voltou ao centro do debate. A proposta defendida pelo prefeito Eduardo Pimentel é incluir no futuro contrato os projetos executivos e a implantação dos contornos ferroviários Leste e Oeste. “Curitiba precisa tirar o trem de carga de dentro da cidade”, afirmou o prefeito durante a mobilização em defesa da medida. A discussão faz parte de uma concessão que reorganizará 4.247 quilômetros de ferrovias em três corredores, entre eles o Paraná-Santa Catarina, estratégico para a ligação do Estado com os portos de Paranaguá e São Francisco do Sul. A ANTT prevê que as contribuições apresentadas nas audiências ajudem a aperfeiçoar a modelagem antes da publicação definitiva do edital.

UMA FERROVIA NO MEIO DA CIDADE
Hoje, 40,7 quilômetros de trilhos atravessam 21 bairros de Curitiba e afetam, segundo a Prefeitura, cerca de 467 mil moradores. São 51 passagens em nível, nome dado aos pontos em que a ferrovia cruza uma rua ou passagem de pedestres no mesmo nível, sem viaduto ou túnel. É nesses cruzamentos que trem e trânsito disputam o mesmo espaço. O impacto aparece na rotina, com interrupções no tráfego, interferências no transporte coletivo, ruído e riscos à segurança. Entre 2005 e 2025, foram registrados 433 acidentes ferroviários na cidade. Somente entre 2021 e 2024, foram 152 acidentes, com mais de 60 feridos e 27 mortes. Para Pimentel, retirar os trens de carga não significa abandonar a ferrovia. Significa separar a operação de cargas da circulação urbana e criar condições para que os dois sistemas funcionem melhor.
O CONTORNO E O QUE VEM DEPOIS
É aí que entram os dois trechos atualmente delimitados pelo DNIT: o Contorno Ferroviário Sul-Leste, com 30 quilômetros, e o Ramal Oeste, com 57 quilômetros. Juntos, representam 87 quilômetros de novos trechos ferroviários previstos na estruturação do empreendimento. O DNIT está conduzindo a contratação do projeto básico dos dois segmentos. O Governo do Paraná acompanha a discussão da nova concessão. Em julho de 2024, Fernando Furiatti Saboia, então diretor-presidente do DER, participou de reunião com representantes do setor produtivo e do governo estadual que apresentou estudos sobre as necessidades da Malha Sul e os investimentos considerados prioritários para a futura concessão. A questão, porém, não é apenas afastar os trilhos do centro de Curitiba. Para ser uma solução de longo prazo, o novo traçado precisa ficar suficientemente distante das áreas urbanizadas para evitar que o crescimento da Região Metropolitana reproduza, algumas décadas adiante, o mesmo conflito que hoje se pretende resolver. Por isso, a inclusão do contorno no novo contrato não significa início imediato das obras. Será necessário concluir a modelagem, definir responsabilidades e investimentos, elaborar os projetos executivos, obter licenças e cumprir as demais etapas até a implantação. A Prefeitura já olha para o que poderá acontecer depois. Pimentel defende que parte das áreas liberadas possa receber novas conexões viárias, ciclovias, parques lineares e equipamentos urbanos. Também cita a possibilidade de utilização da faixa para transporte de passageiros, incluindo o VLT. “É uma grande oportunidade de requalificação urbana”, afirmou. O desafio agora é transformar a convergência de interesses em compromisso contratual. União, Estado, Curitiba, municípios da Região Metropolitana e a futura concessionária precisarão chegar a um acordo sobre traçado, investimentos, responsabilidades e cronograma. Se avançar, o projeto poderá fazer algo raro em grandes cidades: retirar os trens de carga de uma área urbana consolidada, melhorar a operação ferroviária e transformar uma faixa que hoje divide bairros em um novo eixo de integração urbana
