João Azevêdo – Sempre é Possível Fazer Mais

O carro estanca diante do portão, ladeado por extensos muros de tijolo aparente. É uma atmosfera serena, em meio a algumas árvores altas do bosque, assim como é serena a atitude do policial militar à frente da guarita. Ele checa os rostos e franqueia a entrada a uma das equipes de RodoVias&Infra, na bucólica, charmosa e autêntica Granja Santana, para um encontro com o, igualmente sereno e autêntico, chefe máximo do executivo paraibano, João Azevêdo. Na pauta, uma análise completa e pormenorizada do passado recente de sua administração, seus êxitos, legados e os desdobramentos que sua carismática figura deixa para a próxima administração. Um “conjunto da obra” ou melhor, de obras, que, se por um lado será difícil de superar, por outro, exigirá um comprometimento desmedido, tal como o seu próprio, para manter o elevado nível de resultados aos quais se acostumaram os paraibanos.

RodoVias&Infra: Vamos a um breve retrospecto de sua gestão. O senhor assumiu em 2019 e, apesar dos desafios, como a pandemia, entre outras tantas crises, a Paraíba tem consistentemente melhorado seus índices. Qual foi a concepção por trás desse plano mestre?

João Azevêdo: Ao assumirmos o governo em 2019, nossa visão era resgatar e investir na infraestrutura e na que chamo de “infraestrutura social”, ao mesmo tempo em que ajustávamos a máquina pública. Era preciso saldar uma “dívida dura” do poder público com a sociedade, promovendo desenvolvimento e pensando na Paraíba do futuro, no legado que deixaremos.

Este processo, como você bem lembrou, não foi linear. Em 2020, fomos atingidos pela pandemia, e em 2021, o foco foi total no enfrentamento dessa situação. Contudo, as decisões que tomamos naquele período, que, felizmente, se mostraram acertadas, permitiram uma rápida retomada do crescimento. Decidimos que alguns segmentos não parariam, como a agricultura, que trabalha ao ar livre; a indústria, com seus protocolos rígidos; e, especialmente, os call centers, que empregam 26 mil pessoas na Paraíba e se adaptaram rapidamente ao home office.

A construção civil foi outro setor que decidimos não paralisar. Mantivemos nosso programa rodoviário e a iniciativa privada também seguiu. Paramos apenas por 15 dias devido a um surto, mas retomamos rapidamente. Essas decisões foram cruciais para a capacidade de retomada do Estado.

Essa capacidade de investimento e retomada econômica está intrinsecamente ligada à gestão fiscal. Como a Paraíba transformou sua situação financeira para se tornar um destaque nacional?

Quando assumi, o Estado tinha um débito de R$ 350 milhões, um valor considerável. Conseguimos rapidamente sanar essa dívida e implementar uma gestão fiscal eficiente. Enfrentamos períodos difíceis, como a pandemia, e a falta de apoio do Governo Federal para os estados do Nordeste. Os bancos oficiais, como Caixa, Banco do Brasil e BNDES, fecharam as portas.

Tivemos que fazer um ajuste fiscal tão rigoroso que nos permitiu captar recursos em agências internacionais. Hoje, a Paraíba possui três operações com o Banco Mundial, duas com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e operações com o FIDA, a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e o NDB (Banco dos BRICS). Tudo isso foi possível porque, por cinco anos consecutivos, o Estado alcançou a nota A no Tesouro Nacional (CAPAG A+).

Além disso, contratamos a S&P Global Ratings, e por dois anos consecutivos, recebemos a nota AAA, o que sinaliza ao mercado que é seguro investir na Paraíba, com uma projeção de tranquilidade de 24 a 36 meses e segurança jurídica.

Esses indicadores fiscais se traduzem em um ambiente de negócios favorável. Isto tem se revertido em maior disposição e presença dos investidores por aqui?

Sem dúvida. Um relatório recente do Instituto Mackenzie coloca a Paraíba como o primeiro estado do Nordeste e o quinto do Brasil em liberdade econômica. Isso atesta que o ambiente de negócios que buscamos criar está sendo reconhecido por instituições externas. A junção de alta capacidade de investimentos públicos com um ambiente propício para investimentos privados gera resultados.

Temos o Polo Turístico Cabo Branco, com R$ 3 bilhões em investimentos privados. Ninguém investiria R$ 650 milhões em um hotel se não houvesse essa segurança. Essa soma de fatores reflete em outros indicadores: o PIB da Paraíba cresceu 9,9% de 2020 para 2021, mais que a média do Brasil e do Nordeste. Como brincam alguns jornalistas, somos a “onça paraibana”.

Geramos mais de 1,3 milhão de empregos de carteira assinada de 2019 a 2025, com um saldo positivo de 140 mil novos empregos. Só no ano passado, foram 30 mil empregos de saldo. O consumo das famílias atingiu R$ 112 bilhões em 2025, sendo R$ 12 bilhões na zona rural, indicando que a renda está chegando à ponta. E 97% dos municípios da Paraíba tiveram crescimento de PIB.

O recorde de vendas no varejo nos últimos dez meses mostra que a população tem poder de compra. O Índice de Progresso Social (IPS), que mede a qualidade de vida, mostra que a Paraíba, em 2025, possui uma qualidade de vida comparável a estados do Sul e Sudeste, como São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina. Somos o Estado mais competitivo do Nordeste no ranking do CLP, e o 11º no Brasil, com destaque em inovação, onde somos o 6º do País. Não há nenhum dos dez pilares do CLP, saúde, educação, segurança, governança, meio ambiente, infraestrutura, em que a Paraíba tenha nota menor que o quinto lugar no Nordeste.

A infraestrutura social, como o senhor mesmo define, e que é relacionada a áreas como saúde e educação, também viu avanços notáveis. O que o senhor destaca nesse setor?

Em saúde, nossa rede estadual conta com 38 hospitais. Entregamos o Hospital da Mulher em João Pessoa e Campina Grande, e estamos construindo o Hospital de Trauma do Sertão, em Patos, e o Hospital da Mulher do Sertão, em Sousa. Acabamos com as filas de cirurgias eletivas, realizando 213 mil procedimentos.

Com o Coração Paraibano, salvamos milhares de vidas, descentralizando o atendimento para o Sertão. A fila de quimioterapia também foi zerada, e temos duas UTIs aéreas para transporte de pacientes e órgãos, o que nos permitiu zerar a fila de transplantes de coração.

Na educação, celebramos o fato de a Paraíba, apesar de não ser o quarto estado em população, ter alcançado o quarto lugar em números absolutos de aprovações no ENEM-SISU, com 21.360 alunos ingressando na universidade. Recebemos o “Selo Ouro” do Ministério da Educação em alfabetização, atingindo 122 pontos de 150. São avanços extraordinários que preparam nossas crianças para o futuro.

A questão hídrica sempre foi um desafio na Paraíba. Como sua administração está abordando esse tema?

A gestão moderna de recursos hídricos é prioritária. Estamos com um grande projeto, liderado pelo Secretário da Infraestrutura e dos Recursos Hídricos, Deusdete Queiroga, que vai deixar a Paraíba com segurança hídrica em todos os municípios. Estamos construindo duas adutoras que somam 710 quilômetros, com investimento de quase R$ 1 bilhão em recursos próprios.

A Paraíba é privilegiada, pois os dois eixos da transposição do Rio São Francisco terminam em nosso território, permitindo-nos distribuir água para o Rio Grande do Norte e, futuramente, para o Ceará.

E quanto ao saneamento?

No dia 31 de março, véspera de minha saída, faremos na B3 o leilão de uma PPP de saneamento que prevê R$ 13 bilhões em investimentos. Isso universalizará o esgotamento sanitário em 85 municípios da Paraíba, sem privatizar a CAGEPA e sem eliminar o subsídio cruzado.

A CAGEPA continuará responsável pela captação, tratamento e distribuição de água, e também pela arrecadação. A empresa privada operará apenas a coleta e o tratamento de esgoto, recebendo o pagamento da CAGEPA. Não buscamos receita com essa PPP; o foco é universalizar o serviço a um custo acessível para o usuário. É um modelo seguro e replicável, que demonstra a capacidade de inovação e gestão do Estado.

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Qual o papel da tecnologia e inovação na “Paraíba do futuro” a que o senhor costumeiramente se refere?

A Paraíba do futuro é construída com tecnologia e inovação. Estamos implantando o maior radiotelescópio da América Latina, o projeto BINGO, em parceria com o governo chinês e a USP. Junto a ele, criaremos a “Cidade da Astronomia”, com museu e centro de formação em parceria com a Universidade de Xangai.

No Sertão, próximo ao Vale dos Dinossauros em Sousa, estamos desenvolvendo um polo tecnológico em arqueologia e paleontologia, com consultoria espanhola. Inauguramos o Parque Tecnológico Horizonte de Inovação em João Pessoa. Mas o grande destaque é a implantação do Centro Internacional de Computação Quântica, que trará o primeiro computador quântico do Brasil e da América do Sul. Apenas dez países no mundo possuem essa tecnologia.

Em parceria com a China, este projeto terá um impacto direto na soberania nacional, no desenvolvimento de pesquisas em áreas como segurança cibernética, medicina e clima. Imagina a capacidade de antecipar terremotos com horas de antecedência, salvando milhares de vidas? Tudo isso está sendo plantado na Paraíba, visando um futuro de desenvolvimento e pesquisa.

Além da tecnologia, o turismo também tem sido um pilar de crescimento. Quais são as estratégias para este setor?

Nosso turismo está extremamente forte. A taxa de ocupação hoteleira na Capital é de 85% anual, não temos mais baixa estação. Ocupação de 100% no interior, mesmo com uma rede menor. Realizamos eventos cada vez maiores, de esporte, cultura, e feiras literárias. A Paraíba está se abrindo para o mundo.

Em Lisboa, assinamos a instalação de um hotel cinco estrelas do grupo Vila Galé no Centro Histórico de João Pessoa, um investimento que faz parte de um programa de R$ 150 milhões para revitalizar essa área. Também inauguramos a Sala Paraíba em um polo tecnológico em Portugal, servindo de ponte para o mercado europeu, especialmente para nossas startups e a indústria da construção civil, que já vende imóveis de João Pessoa em Lisboa.

Sediaremos um evento do Web Summit em março, trazendo grandes players de TI para cá. No Polo Turístico Cabo Branco, estamos construindo 14 mil leitos de hotelaria, com nove resorts e três parques temáticos contratados, gerando 20 mil empregos. Inclusive, assinei há pouco um novo empreendimento com um conceito de turismo médico, oferecendo estadias para cirurgias e tratamentos, algo inovador e que atende a uma demanda crescente.

A infraestrutura rodoviária é sua área de formação e paixão. O DER-PB completa 80 anos em 2026 e tem sido um pilar fundamental nas suas gestões. Qual o balanço e os projetos futuros?

Como engenheiro, essa é uma área que me apaixona. O DER-PB tem um papel histórico e fundamental. Todas as 223 cidades da Paraíba têm ligação asfáltica. Mas a demanda continua: há muitas estradas que ligam grandes distritos rurais com produção agrícola à malha principal, e há a necessidade de interligar regiões como a Serra de Teixeira com o Vale do Piancó.

Estamos construindo 50 quilômetros de estrada de Tavares a Nova Olinda para integrar essas regiões. Nosso programa Travessias Urbanas asfaltou 210 cidades, transformando a experiência de mobilidade urbana. O DER-PB tem um programa de investimentos que ultrapassa R$ 5 bilhões apenas em infraestrutura e logística.

Também investimos em 12 aeródromos, essenciais para a aviação privada e para nosso sistema de saúde, UTIs aéreas. O aeroporto de Patos, no Sertão, está pronto para ser inaugurado, e os aeroportos de João Pessoa e Campina Grande, operados pela Aena, viram o movimento saltar de 700 mil passageiros em 2020 para 1,8 milhão em 2025.

No entanto, o maior destaque em investimento rodoviário é o complexo da região metropolitana de João Pessoa, que inclui o Arco Metropolitano e a Ponte do Futuro. Estamos investindo mais R$ 800 milhões, em recursos próprios do Estado, nesses complexos, que desafogarão o trânsito na Capital, Arco Metropolitano, e facilitarão o acesso ao Porto de Cabedelo, Ponte do Futuro. Pedimos ao DNIT que projete a interligação para fechar o Arco e beneficiar toda a região, de Santa Rita a Lucena. Também fizemos intervenções significativas em mobilidade urbana dentro de João Pessoa, com viadutos e novas conexões.

Falando em mobilidade urbana, o senhor também tem focado em transporte público. Há projetos para João Pessoa?

Sim. Não adianta só fazer novas vias; é preciso investir em transporte público eficiente. Temos um projeto de R$ 400 milhões para a implantação do sistema BRS (Bus Rapid System) em João Pessoa. O Estado está entrando com R$ 240 milhões para construir dois grandes corredores e estações de integração. A ideia é ter ônibus elétricos, com grande capacidade, melhorando significativamente a mobilidade e reduzindo a circulação de ônibus no centro da cidade.

Em relação aos investimentos no Estado, com todos esses números, quanto é investido em relação ao que é arrecadado?

Em relação à receita corrente líquida, estamos chegando a 13% de investimento. Saímos de uma média de R$ 500 milhões anuais para quase R$ 3 bilhões por ano, um aumento de seis vezes. Quando fui secretário de infraestrutura, os pagamentos com recursos próprios eram de R$ 10 a R$ 12 milhões por mês. Hoje, o Secretário Deusdete Queiroga investe entre R$ 140 a R$ 150 milhões por mês em recursos próprios.

Com a proximidade do fim de sua gestão e a transição para o Vice-Governador Lucas Ribeiro, como o senhor enxerga a continuidade desses projetos e a segurança institucional para a Paraíba?

Acredito que sempre é possível fazer mais. Tivemos uma grande capacidade de realização, e não tenho dúvidas de que virão novos ciclos virtuosos. Nossa transição será muito tranquila, pois o Vice-Governador Lucas Ribeiro tem trabalhado comigo nos últimos quatro anos e está totalmente alinhado com nossa visão.

Lançamos o programa Paraíba 25/26, um conjunto de obras e políticas públicas pensadas para 2025 e 2026. Muita coisa já foi entregue, está em execução, e muitas obras estão prontas para inaugurar ou em licitação, com dinheiro e recursos garantidos. Quando eu deixar o governo, em 2 de abril, farei uma prestação de contas de tudo isso. A Paraíba tem caixa e disponibilidade financeira para continuar com esse programa de investimentos.

Essa transição ocorrerá de forma muito tranquila. Somos politicamente alinhados com o vice-governador e com o grupo que comandará os destinos do Estado e espero que por mais quatro anos. Existem políticas públicas que se transformaram em políticas de Estado, não apenas de governo, e que não permitem mais retrocesso.

Nosso Orçamento Democrático é um instrumento valioso: realizamos 16 reuniões por toda a Paraíba, ouvindo a população com microfone aberto. Isso nos permite identificar demandas e dar respostas rápidas, com mais de R$ 4 bilhões em investimentos vindos diretamente das demandas populares. Programas como o Opera Paraíba, que zerou filas de cirurgias, mostram que estamos atendendo às necessidades da população. Investimos R$ 4,1 bilhões anuais em saúde e R$ 13,3 bilhões em segurança, com equipamentos modernos e 2.800 profissionais em campo. Para a Paraíba, “o que depende de dinheiro, não é problema”.

Para finalizar, como tradicionalmente RodoVias&Infra pede, qual sua mensagem para o Brasil, para os investidores e empreendedores, e uma especial para o DER-PB pelos seus 80 anos de história?

Para quem é de fora, faço um convite: venham conhecer a Paraíba! Temos uma crença: “quem bebe da água da Paraíba, volta”. E quem volta, bebe mais água, fica mais tempo, compra um apartamento e vem morar. Oferecemos belezas naturais extraordinárias, uma qualidade de vida diferenciada e um Estado pronto para receber investimentos em todas as áreas.

Aqui, as relações entre o poder executivo e o empresariado são republicanas e respeitosas. Um projeto do empresário se torna “nosso projeto”, e mobilizamos toda a equipe de governo para facilitar a instalação. Não é à toa que a Paraíba foi eleita o terceiro destino do mundo em consultas pela Booking e é divulgada em 156 países. Temos segurança, infraestrutura e um conjunto de fatores que nos tornam muito atraentes.

Para o DER-PB, minha mensagem é de reconhecimento a um papel histórico. Tenho uma relação muito grande com o órgão; meu sogro foi topógrafo, meu cunhado engenheiro. Conheço de perto a importância de uma estrada na vida de uma comunidade. Sei do sofrimento de um distrito rural que perde 10% a 15% de sua produção por estradas ruins. Sei do impacto na segurança alimentar, na redução de custos e no transporte de pacientes. A estrada realmente promove desenvolvimento.

O programa de infraestrutura rodoviária da Paraíba é um dos maiores, com mais de R$ 5 bilhões em investimentos. Inclui rodovias novas, recuperação, travessias urbanas e os grandes complexos metropolitanos. Isso só é possível porque temos uma equipe extremamente comprometida. Digo todos os dias ao Superintendente Dr. Carlos Pereira que ele tem sorte de ter uma equipe que faz acontecer.

O DER-PB é a mãe da malha rodoviária da Paraíba. Se você olhar o mapa, verá a quantidade enorme de estradas em execução, é impressionante. É preciso celebrar essa conquista, que não é do governador nem do governo, mas do povo que nos colocou aqui. Um bom governo se faz com um bom time, que atua com dedicação e comprometimento. A Paraíba, hoje, é muito melhor do que a Paraíba que recebi. E essa é a tranquilidade que tenho.