RodoVias&Infra conversou com Filipe Braga de Brito Maia, o Diretor Administrativo Financeiro do Departamento de Estradas de Rodagem da Paraíba (DER-PB), sobre a jornada de revitalização do órgão. Disciplina financeira e gestão de pessoas, mira na eficiência e transparência, de acordo com ele, foram e continuam necessários para manter o Departamento como protagonista preponderante no cenário nacional da infraestrutura.

RodoVias&Infra: Nós conhecemos as dificuldades iniciais desde a sua chegada. Quais foram elas?
Filipe Maia: Assumi a Diretoria Administrativa Financeira em 31 de janeiro de 2011, em um momento crucial, juntamente com o Dr. Carlos Pereira. A missão inicial, conforme me foi confiada, era clara: “tome conta do DER-PB como se fosse sua casa. Seu papel aqui é cuidar da casa para que todos se sintam bem”. Essa orientação se tornou o norte da minha gestão.
Mas, minha primeira impressão foi de um órgão desgastado e depreciado. As instalações físicas estavam em condições precárias, com divisórias descascando e tubulações expostas, o que era paradoxal para uma instituição de engenharia. A infraestrutura física e a cultura organizacional exigiam uma transformação urgente para resgatar a autoestima e a funcionalidade do DER-PB.
A desmotivação e a baixa autoestima eram problemas profundos que afetavam a produtividade. Muitos servidores, desanimados, não queriam trabalhar. Nossa estratégia foi proativa: chamei cada um individualmente, para ouvir, entender e resgatar o que chamo de “paixão pelo trabalho”. Lembro-me de um caso em que me disseram que eu jamais conseguiria fazer um determinado servidor trabalhar. Fui até ele, conversei e, para nossa satisfação, ele voltou a produzir, a ir para o trecho, sentindo-se útil novamente ao DER-PB.
Entendemos que a transformação deveria começar com ações concretas e visíveis, que sinalizassem a mudança de rumo. Uma das primeiras e mais simbólicas medidas foi a limpeza maciça das instalações. Do jardim dos fundos, por exemplo, retiramos doze caçambas de lixo acumulado, composto por amostras de laboratório e resíduos de obras. Essa iniciativa, que removeu doze caminhões de lixo no primeiro mês, não apenas saneou o ambiente, mas também funcionou como um marco de que uma “revolução” estava em curso.
Naturalmente, essa abordagem mais incisiva, liderada por um jovem de 29 anos, gerou certa resistência e questionamentos. Fomos aconselhados a ter paciência, mas mantivemos o propósito de “incomodar”, no bom sentido, para mudar. Havia um forte corporativismo interno. Embora contássemos com economistas e administradores, a cultura era de que os engenheiros tendiam a intervir em todas as áreas, o que, por vezes, limitava a atuação dos demais profissionais. Este panorama gerava uma percepção de desorganização e, consequentemente, a já comentada baixa autoestima institucional, que precisava ser revertida urgentemente.
E aí o aprendizado: no trato com as pessoas, aprendemos que ser justo, e não apenas “bonzinho”, é vital para evitar acusações de perseguição quando um “não” se faz necessário. Essa postura contribuiu para a confiança interna e externa. Paralelamente, iniciamos a modernização dos processos. A digitalização, por exemplo, ainda estava em estágios iniciais nos órgãos públicos. A ideia de comprar scanners e digitalizar documentos encontrou oposição, mas superamos essa etapa, implementando um sistema que hoje é essencial.
A gestão de uma diretoria que cuida de todos os recursos, desde o cafezinho ao combustível, das diárias ao material de higiene, é intrinsecamente complexa, pois lida diretamente com as expectativas e necessidades das pessoas. É preciso ter um perfil que concilie a psicologia, a diretriz administrativa e a legalidade para gerir as demandas de forma justa e eficiente.
Administração de um órgão como o DER-PB. Como o Departamento superou períodos de grande dificuldade financeira e estabeleceu sua atual credibilidade?
Enfrentamos momentos de grande dificuldade financeira, como quando tínhamos despesas de R$ 15 milhões e recebíamos apenas R$ 10 milhões para rateio entre os órgãos, exigindo decisões difíceis sobre quais pagamentos priorizar. A superação veio com a disciplina e a autonomia conferida pelo Dr. Carlos Pereira, que nos empoderou a “resolver”. Essa autonomia, aliada à reputação do DER-PB na execução de obras, nos deu credibilidade. Era um cenário desafiador, agravado por um período econômico complexo no país.
Hoje o DER-PB é reconhecido como um bom pagador. Atualmente, em 2025/2026, pagamos em média entre R$ 50 milhões e R$ 70 milhões por mês em obras com recurso próprio. Nosso procedimento é ágil: após a medição das obras, compilamos os dados e solicitamos o recurso, que é liberado no mesmo dia ou no dia seguinte, após a aprovação do Secretário de Infraestrutura e do Governador. Essa agilidade garante que, embora a rapidez final possa depender da documentação das empresas, o DER-PB sempre tem o dinheiro disponível.
Em 2025, o DER-PB executou um orçamento de R$ 1 bilhão, uma marca histórica. Para 2026, estamos com um programa de R$ 2,37 bilhões em obras. Esse volume é gerenciado por uma equipe enxuta de 535 funcionários, com uma folha de pagamento anual de R$ 40 milhões, representando cerca de 2% do valor do programa, o que é altamente econômico para o Governo.
O Governador só libera obras com capacidade de pagamento assegurada, evitando dívidas futuras. Essa gestão fiscal atraiu a atenção de instituições como o BNDES e o Banco Mundial, que nos procuraram devido à nossa capacidade de endividamento e classificação de risco (Classe A, A+), demonstrando respeito pela gestão fora do Estado.
O DER-PB é a “saúde do Estado”, bombeando recursos para os servidores, a população e as empresas parceiras, oxigenando e dando força à economia. Nossa missão é dar força, dar ânimo, cobrar e, ao mesmo tempo, ser cordiais com todos que interagem conosco.

O senhor mencionou um período de baixa autoestima entre os servidores. Como a gestão de pessoas contribuiu para reverter esse quadro e formar uma equipe “aguerrida”?
A baixa autoestima e a desmotivação eram problemas sérios. A estratégia foi chamar cada colaborador individualmente, ouvir suas preocupações e reativar seu engajamento, focando no “salário moral”, a que o Dr. Carlos e o Dr. Zé Arnaldo costumam se referir. Oferecemos melhores condições de trabalho para as equipes de campo, incluindo uniforme, protetor solar, óculos e chapéus. Criamos um núcleo de engenharia e segurança do trabalho, dedicado, para assegurar um ambiente seguro. Acreditamos que o servidor é um ativo do DER-PB, um funcionário bem equipado, preparado e contente, performa melhor.
Contudo, ainda enfrentamos a luta constante pela realização de um concurso público, devido às restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal, uma demanda que já discuti com autoridades. A transmissão de conhecimento dos mais antigos, como Zé Arnaldo e Dr. Francisco de Assis, para os novatos, também é fundamental para garantir uma transição suave e evitar rupturas, preparando a nova geração para “correr” e manter o ritmo do DER-PB.
Além do resgate da autoestima do servidor, houve um resgate da autoestima da população e mesmo do modo como o qual ela encarava o DER-PB. E sabemos que isto ocorreu pelas entregas. Quais foram elas?
A confiança da população estava abalada; muitos não acreditavam que o DER-PB faria as estradas. A reconquista começou quando a gestão priorizou o ressurgimento do órgão. Um exemplo emblemático foi a Rodovia da Reintegração, que ligava cinco cidades e era um trecho abandonado. Quando a obra foi licitada e iniciada, a descrença se transformou em esperança. Hoje, quando a equipe do Departamento chega a um local, a população diz: “Agora vai. O DER-PB chegou. Confio”.
Projetos como a Ponte do Futuro e o Arco Metropolitano foram iniciados com recursos próprios, demonstrando a capacidade de execução do Estado. O órgão transformou a percepção pública a ponto de as demandas no Orçamento Democrático mudarem: de “Estrada” como prioridade, as pessoas passaram a pedir mais saúde, educação e segurança, pois as estradas estavam sendo resolvidas.
Um dos exemplos mais marcantes dessa reconquista foi a Rodovia da Reintegração, que ligava cinco cidades no sertão, um trecho que havia sido abandonado. Lembro-me de ir com meu motorista, Seu Valdir, a Assunção, e conversar com um morador que, sem saber minha identidade, me disse que seu avô e seu pai falavam daquela estrada, mas que ela nunca sairia. Quando revelei que o DER-PB iria licitá-la, ele não acreditou. Posteriormente, com a obra em andamento, ele me encontrou e confirmou: “É bem o que o senhor falou”. Esse tipo de experiência mostra que o DER-PB voltou a levar esperança.
Em um cenário nacional, como o DER-PB se posiciona e qual a importância da interação com outros Departamentos de Estradas de Rodagem do Brasil?
Vemos a interação com outros DERs como um pilar estratégico. Nossas equipes buscam constantemente networking com departamentos de outros estados, como o Paraná, por exemplo, sob a orientação do Dr. Carlos Pereira. Acredito firmemente que os DERs são as molas-mestras da economia de um país. A somatória dos investimentos realizados por Departamentos como os da Paraíba, Distrito Federal, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Sergipe, Alagoas e Tocantins, por exemplo, revela o quanto esses órgãos impulsionam o desenvolvimento nacional.
Participamos ativamente da ABDER (Associação Brasileira dos Departamentos de Estradas de Rodagem), valorizando muito a gestão do Dr. Fauzi, que tem incentivado nossa participação em câmaras temáticas e grupos de trabalho. Para mim, como servidor efetivo da infraestrutura, é crucial dialogar com outros players, entender as metodologias e abordagens de órgãos como o DER-SP ou o DER-SE. Essa troca uniformiza entendimentos, inclusive jurídicos, sobre licitações e a nova legislação, com os procuradores se auxiliando mutuamente através da ABDER.
No fim das contas, todo esse esforço impulsiona a nação a levar infraestrutura de qualidade, o que se traduz em qualidade de vida para a população, diminuição de custos logísticos e mais tempo para a família. Como exemplo prático, uma ligação que antes levava 40 minutos em uma rua, agora leva 5. A ponte que conecta o Bairro dos Bancários à região metropolitana de João Pessoa, por exemplo, eliminou uma volta enorme e reduziu engarrafamentos significativamente. O cidadão chega em casa mais cedo, pode passar mais tempo com os filhos. É uma missão do DER-PB levar bem-estar, elevar a autoestima da população e melhorar concretamente a vida das pessoas.
Pensando daqui para adiante, como o senhor vê os próximos passos do DER-PB?
É notável que, em meio a todo o turbilhão e instabilidade que o Brasil frequentemente enfrenta, o DER-PB conseguiu atravessar esse período com tantas obras em execução e, o que é mais importante, sem nenhuma mácula. Isso é o fruto de uma equipe com propósito, que está focada em entregar resultados e em “fazer a coisa correta”.
Minha visão para o futuro é que o DER-PB continue a ser esse exemplo de gestão pública eficiente e transparente, um bloco sólido e fundamental que contribui ativamente para melhorar e mudar a vida das pessoas para o bem. Nossa meta é que o Departamento mantenha sua vitalidade, sua operosidade e sua capacidade de levar progresso e qualidade de vida a todos os paraibanos, honrando sua história e construindo um futuro ainda mais promissor.
