BIENAL DAS RODOVIAS 2026

A força da regulação brasileira foi o fio condutor da Bienal das Rodovias 2026, que reuniu em Brasília ministros, reguladores, concessionárias e investidores para debater o presente e o futuro das concessões rodoviárias no país, em uma edição que também celebrou os 30 anos da ABCR.

Brasília recebeu, em junho, a Bienal das Rodovias 2026, promovida pela ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias) em comemoração aos 30 anos da entidade. O evento reuniu mais de 3,5 mil pessoas e mais de 30 painéis, discutindo os avanços regulatórios que sustentam uma carteira que já ultrapassa 30 mil quilômetros de rodovias concedidas no país, e os desafios que se colocam para os próximos anos, dos investimentos em tecnologia à ampliação das fontes de financiamento. Sob o mote da força da regulação brasileira, a abertura reuniu no mesmo palco o ministro dos Transportes, George Santoro, o presidente da ABCR, Marco Aurélio Barcelos, o diretor-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), Guilherme Sampaio, e a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, um encontro que ganhou ainda mais peso com o lançamento, direto do palco da Bienal, da nova edição da Rodovias&Infra (RVi16), que trouxe uma entrevista exclusiva com Sampaio e Barcelos sobre os rumos das concessões rodoviárias e se consolidou como um dos grandes destaques da programação. Ao abrir oficialmente o evento, Barcelos defendeu que a força da regulação brasileira não depende apenas do papel das agências reguladoras: “a regulação não é exclusiva da agência reguladora ou do regulador; ela é também do regulado e do usuário. Esse processo de amadurecimento institucional nos leva a uma regulação forte”. Para o presidente da ABCR, os contratos de concessão são, por natureza, incompletos, uma característica que o setor precisou aprender a administrar ao longo dos últimos 30 anos. “Eles são recorrentemente reconstruídos e precisamos aceitar este movimento. Exatamente por isso precisamos de sistemas de equilíbrio”, disse, recorrendo a uma metáfora sobre embarcações que inevitavelmente enfrentam desvios em longas travessias para ilustrar a necessidade de mecanismos regulatórios ágeis e responsivos. Barcelos apresentou ainda um retrospecto do volume de investimentos privados mobilizados pelo setor, destacando que 2025 registrou o maior patamar da história, superando a marca de R$ 29 bilhões, recorde que levou mais de dez anos para suplantar o pico anterior, de 2013. Segundo ele, a expectativa é a de que 2026 ultrapasse os R$ 30 bilhões em investimentos: “essa é a força do setor. A gente precisa tratar as PPPs e as concessões exatamente porque o mercado reage como políticas de Estado”, afirmou, defendendo o avanço do projeto de lei que atualiza o marco regulatório de concessões e PPPs, hoje em tramitação no Senado após aprovação na Câmara. O dirigente chamou atenção, também, para o baixo espaço orçamentário destinado a investimentos públicos no país, segundo ele, pouco mais de 5% do orçamento é hoje dedicado a despesas discricionárias, e menos de 2% a investimentos, argumento que usou para reforçar o protagonismo do setor privado na expansão da infraestrutura nacional. Na abertura, Barcelos lançou ainda a nova edição do Pacto pela Segurança Viária, iniciativa que passa a se estruturar como uma coalizão ampliada entre instituições públicas e privadas, com a meta de reduzir em 50% o número de vítimas fatais em rodovias concedidas nos próximos dez anos: “a inteligência artificial vai transformar de uma vez por todas o nosso setor. Precisamos colocar essa discussão no centro da agenda porque essa revolução já está acontecendo”, destacou. Na sequência, coube ao ministro dos Transportes, George Santoro, conduzir a palestra magna de abertura, na qual tratou da incorporação de fatores de sustentabilidade e resiliência climática aos contratos de concessão rodoviária como um dos avanços mais relevantes da agenda regulatória recente. “O Brasil tem se notabilizado por entregar uma agenda regulatória moderna e eficaz, que evoluiu muito nos últimos anos a partir da política de concessões rodoviárias”, afirmou, destacando o papel da ANTT na construção dessa agenda: “a questão da sustentabilidade nos enquadra no que há de mais moderno no mundo”. O ministro dedicou parte de sua fala ao papel do BNDES na estruturação de novos modelos de financiamento para a infraestrutura, afirmando que o banco “tem ancorado o mercado financeiro” do setor, e defendeu o aprofundamento do debate técnico sobre o custo dos juros no país: “é um debate técnico, não político, que precisa ser desenvolvido mais. Não pode simplesmente um grupo de instituições financeiras pautar a taxa de juros futura do Brasil sem ter uma discussão mais ampla”, disse, ainda que reconhecendo a autonomia do Banco Central para decidir sobre a política monetária. Santoro afirmou que o governo trabalha para diversificar as fontes de financiamento do setor rodoviário, incluindo um plano de emissão de debêntures de infraestrutura no mercado internacional: “independentemente da taxa de juros estar alta, conseguimos construir mecanismos nos contratos, modelagens econômicas, estruturas regulatórias bastante sólidas e temos mecanismos de resolução de conflitos […] fundamentais para uma agenda de atração de investimentos internacionais”. O ministro citou ainda a recuperação financeira da Infra S.A., estatal responsável pela estruturação de projetos de infraestrutura no país, que segundo ele registrou patrimônio líquido negativo nos anos anteriores e alcançou, neste ano, o primeiro resultado positivo em muito tempo, além de mencionar a carteira atual de mais de cem projetos em estruturação entre rodovias, ferrovias, portos, hidrovias, aeroportos e terminais logísticos, incluindo 57 projetos rodoviários em andamento em parceria com o BNDES e outros parceiros, como BID e Banco Mundial. Ao tratar do planejamento futuro do setor, defendeu uma visão mais integrada entre modais de transporte: “nós estamos olhando para o corredor logístico. O que envolve não só rodovia, mas envolve ferrovia, hidrovia”, disse, associando essa integração à meta do ministério de reduzir os custos logísticos do país, hoje, segundo ele, ainda no dobro da média internacional. Também na abertura, o diretor-geral da ANTT, Guilherme Sampaio, discorreu sobre o papel da agência na coordenação dos interesses envolvidos nos contratos de concessão: “temos projetos de longo prazo e que estão performando e a agência tem a alegria de harmonizar os três interesses do poder público, concessionária e usuário. Nós vivemos e veremos o melhor momento da infraestrutura nacional. Temos mais de R$ 400 bilhões de investimentos contratados”. Sampaio voltaria ao tema ao longo do evento, apontando a revolução comportamental como o principal eixo por trás da transformação recente vivida pelo setor regulatório: “foi a revolução comportamental dos dirigentes, dos nossos servidores e colaboradores, de todo ecossistema de concessão de rodovias”, disse, citando o programa PROREV e a consolidação do RCR (Regulamento de Concessões Rodoviárias) como marcos dessa evolução, e defendendo que a continuidade do trabalho regulatório de qualidade passa, necessariamente, pela autonomia financeira das agências. Encerrando o bloco de abertura, a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, apresentou números que evidenciam o salto no volume de recursos destinados pelo banco ao financiamento rodoviário: de uma média histórica de R$ 3 bilhões por ano, o BNDES passou a aprovar cerca de R$ 25 bilhões anuais na última década, com expectativa de que 2026 supere esse patamar Segundo ela, o salto não é fruto apenas do sucesso das concessões e das otimizações contratuais, mas também de inovações no desenho financeiro das operações: “hoje estruturamos pacotes de garantias complexos, as operações de financiamento das rodovias são grandes e são desenhadas no BNDES de acordo com a característica daquela concessão. Com isso a gente conseguiu destravar o financiamento”, explicou. Luciana aproveitou o momento para prestar uma homenagem a duas mulheres que, segundo ela, foram decisivas para o avanço recente do setor: Natália Saad, chefe do departamento de rodovias do BNDES, e Viviane Esse, secretária nacional de Transporte Rodoviário do Ministério dos Transportes: “a mensagem aqui é que mulheres e homens juntos podem fazer melhor. Sem a Viviane e sem a Natália, nós não estaríamos aqui”, afirmou, reforçando ainda que o trabalho coordenado entre as diferentes esferas do poder público e o setor privado é condição essencial para uma regulação forte: “não existe regulação forte, governança correta, se as várias instâncias federais não trabalham coordenadas, e nós trabalhamos muito coordenados”.

DIRETORIA DA ABCR CELEBRA OS 30 ANOS DA ENTIDADE

A abertura também foi marcada por manifestações da própria diretoria da ABCR, que dividiu o palco com Barcelos para celebrar a realização do evento no ano em que a entidade completa três décadas de atuação. Marco Justi, diretor executivo da ABCR, estendeu o reconhecimento a toda a cadeia de fornecedores de serviços e equipamentos que viabilizou o evento, situando a Bienal como expressão de uma maturidade construída pelo setor ao longo do tempo: “essa trajetória de crescimento é também a nossa resposta, como setor, aos desafios macroeconômicos internos e externos que temos enfrentado nos últimos anos”. Karina Fera, diretora jurídica da ABCR, resumiu o espírito coletivo por trás da conquista: “a força da regulação é, antes de tudo, a força da nossa união. Caminhamos juntos para chegar até aqui”, afirmou, destacando que os 30 anos da entidade representam menos um ponto de chegada do que “uma prévia de tudo o que ainda está por vir para o setor”. Guilherme Bianco, diretor de Relações Institucionais da ABCR, atribuiu o êxito da Bienal ao esforço coletivo de toda a comunidade do setor: “todos nós, aqui, somos responsáveis pelo sucesso da nossa história. Este evento não celebra apenas os 30 anos da ABCR, mas os 30 anos de amadurecimento de um setor inteiro”, disse, agradecendo também aos patrocinadores que viabilizaram a realização da Bienal.

ANTT LANÇA PROGRAMA DE SEGURANÇA PARA MULHERES NAS RODOVIAS

A Bienal também serviu de palco para o lançamento de uma iniciativa que reúne, de uma só vez, poder público, concessionária e suporte jurídico em torno de uma pauta específica: a segurança das mulheres nas rodovias. Na quinta-feira (18/06), a ANTT assinou o termo de parceria que dá início ao Programa Rodovia Segura para Todas, em uma cerimônia acompanhada de perto por representantes da Polícia Rodoviária Federal. A concessionária que vai testar o programa na prática também teve voz própria no anúncio. Camila Marcondes, diretora de unidade da Way-364, e a primeira mulher a assumir a diretoria de uma concessionária de rodovias no Brasil, representou a empresa que assume, a partir de 2026, 490 quilômetros da BR-060/364 entre Goiás e Mato Grosso, justamente o trecho, entre Rio Verde (GO) e Rondonópolis (MT), escolhido para sediar a primeira aplicação prática do Rodovia Segura para Todas. Para a concessionária, o momento é simbólico: a operação da rodovia ainda está sendo estruturada, e já nasce com a segurança das mulheres como parte do desenho do projeto, não como reboque de uma etapa posterior. “A gente não quer só que as mulheres tenham acesso à rodovia, quer que elas também estejam à frente da gestão dela. Esse programa é sobre isso: garantir que a mulher chegue com segurança e, ao mesmo tempo, enxergue espaço pra crescer dentro do setor, dos dois lados da pista”, disse Camila. Foi Letícia Queiroz, sócia-diretora do escritório Queiroz Maluf Reis e responsável pelo suporte jurídico da iniciativa, quem detalhou a mecânica do programa por trás do anúncio. “Esse projeto é muito interessante, ele começa com a escuta ativa: vamos a campo ouvir das mulheres que usam a rodovia, que vivem a mobilidade feminina, o que precisa ser feito”, resumiu. Letícia explicou que as propostas de melhoria se apoiam em três pilares, infraestrutura, atendimento e tecnologia, capazes de transformar bases operacionais e pontos de descanso em locais seguros: câmeras, acesso exclusivo para mulheres, botão de emergência, geolocalização, iluminação em LED, atendimento humanizado e integração direta com a Polícia Rodoviária Federal, unindo esforços entre as concessionárias das diversas infraestruturas do país. No palco da Bienal, quem representou o Grupo Way Brasil na assinatura foi Paulo Nunes Lopes, o “Paulinho”, diretor-presidente da holding que controla a Way-364 e outras concessionárias rodoviárias no Centro-Oeste do país. Ao assinar o termo de parceria no palco da Bienal, o diretor-geral da ANTT, Guilherme Sampaio, resumiu o espírito por trás da iniciativa como parte de uma transformação maior do próprio conceito de infraestrutura: “a gente fala muito de algo primordial: infraestrutura feita por pessoas”. Para Sampaio, o programa também depende do que chamou de ecossistema ao redor das mulheres, maridos, pais, amigos, para de fato fazer a diferença, e não deve ser tratado como promessa distante: “não é a transformação do futuro, é a transformação do presente, de que juntos teremos mais lideranças femininas. Vamos em frente, que esse país é vocacionado pra ser gigante com a presença e a primordialidade feminina.” Com o termo assinado, o cronograma já está em marcha: a primeira fase de implementação, no trecho sob concessão da Way-364, tem prazo de 60 dias para execução. A iniciativa segue aberta à adesão de novos parceiros.

FINANCIAMENTO: BNDES E INFRA S.A. PUXAM A FILA DE UM MERCADO MAIS ROBUSTO

Se a abertura deu o tom político do evento, foi no painel sobre financiamento que a Bienal colocou na mesa a pergunta que sustenta toda a expansão das concessões: de onde vem, e de onde ainda vai precisar vir, o dinheiro que bancará os próximos anos de rodovias no Brasil. O debate reuniu representantes do setor financeiro, de concessionárias, seguradoras e estruturadores de projetos, e teve no BNDES e na Infra S.A. dois dos protagonistas mais aguardados. Superintendente de Infraestrutura do BNDES, Felipe Borim resumiu o momento do banco em uma frase direta: “o financiamento para a infraestrutura realmente está em outro patamar”. Segundo ele, o crescimento da presença do BNDES nas rodovias reflete tanto a expansão do próprio pipeline de projetos quanto uma capacidade maior de articulação entre o banco, os estruturadores e os agentes privados, um trabalho de bastidor que vem permitindo destravar operações cada vez mais complexas. Borim foi direto ao apontar onde mora o próximo desafio: ampliar a participação dos investidores institucionais, hoje ainda pouco explorada diante da dependência das debêntures incentivadas em relação à demanda de pessoas físicas, um modelo que, na avaliação dele, já esbarra em seus limites de escala. A aposta do banco, disse, está em fortalecer o uso das debêntures de infraestrutura como porta de entrada para esse capital institucional. Do lado da Infra S.A., o diretor de Planejamento, Cristiano Della Giustina, trouxe a perspectiva de quem estrutura os projetos que, mais tarde, vão precisar desse funding. Para ele, a distribuição de riscos deixou de ser um detalhe jurídico e passou a ocupar o centro da elaboração dos contratos de concessão, o que exige um diálogo cada vez mais próximo com quem financia. Della Giustina contou que a estatal tem intensificado esse relacionamento por meio de roadshows realizados no Brasil e no exterior, e destacou que os contratos atuais já incorporam instrumentos regulatórios e tecnológicos que aumentam a previsibilidade das receitas, o que, na prática, reduz risco tanto para investidores quanto para financiadores. Resumiu a lógica em uma frase que traduz bem o peso do tema: “se não tiver o recurso, o contrato não gira. Se o contrato não gira, o serviço não é entregue”. Ao redor dessas duas falas, o painel deixou claro que o funding das rodovias já não depende de uma única fonte. A diretora de Finanças Corporativas da EcoRodovias, Andrea Fernandes, defendeu a manutenção das debêntures incentivadas além do prazo hoje previsto em lei, enquanto o diretor de Transporte e Logística do Santander Project Finance, Ricardo Lee, apostou que o BNDES seguirá como referência em projetos complexos e em momentos de maior instabilidade — papel que os bancos comerciais e o mercado de capitais complementariam, ampliando liquidez e acelerando a execução das obras. A diretora Financeira da Motiva, Josiane Carvalho de Almeida, lembrou que o setor ainda convive com uma taxa de juros estrutural elevada, mesmo com toda a agilidade recente na engenharia financeira dos contratos, e o diretor comercial da Tokio Marine Seguradora, Rogério Spezia, defendeu um papel mais estruturante para as seguradoras, para além da simples cobertura de risco.

DIÁLOGO ENTRE CONTROLE E REGULAÇÃO: CAVALCANTI DEFENDE AVANÇO LEGISLATIVO SEM RUPTURA

Outro eixo que ganhou destaque na Bienal foi a relação, cada vez mais próxima, entre os órgãos de controle e as agências reguladoras, tema que reuniu, além de Barcelos e Sampaio, o secretário especial do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos), Marcus Cavalcanti, o secretário da SecexConsenso do TCU (Tribunal de Contas da União), Nicola Khoury, e o presidente da Sociedade Brasileira de Direito Público, Carlos Ari Sundfeld. Para Cavalcanti, o principal avanço em discussão hoje é legislativo: o PL 2892/2011, que atualiza o marco regulatório de concessões e PPPs e já tramita no Senado após aprovação na Câmara. Na leitura do secretário do PPI, o projeto não representa uma virada de mesa, mas o amadurecimento de um modelo que já funciona. “Ele aperfeiçoa uma lei que funcionou bem ao longo das últimas décadas, esclarece dúvidas relevantes para investidores e reduz incertezas jurídicas. Evoluímos sobre uma base já consolidada, sem ruptura regulatória. Isso fortalece a segurança jurídica e contribui para ampliar a capacidade de atração de investimentos”, afirmou, defendendo que o Estado amplie sua capacidade de resposta diante de projetos que se estendem por décadas. O painel, no entanto, não deixou de apontar riscos. Sundfeld alertou que a judicialização de contratos ainda é uma ameaça real ao fluxo das decisões regulatórias: “se nós não enfrentarmos isso, as agências, além de terem que enfrentar os seus problemas, vão continuar sendo afetadas por decisões judiciais cautelares que impedem o fluxo das decisões”. Já Khoury citou a SecexConsenso, unidade do TCU voltada à mediação de conflitos em contratos estressados, como um avanço institucional que já destravou bilhões em investimentos, embora reconheça que o modelo, hoje sob análise de constitucionalidade pelo STF (ADPF 1183), ainda precise de ajustes. Barcelos fechou o debate reforçando que o controle não deve ser lido como entrave, mas como parte do próprio amadurecimento do setor: “o simples fato de saber que uma decisão pode ser controlada já leva gestores, reguladores e concessionárias a buscarem soluções melhores”

AGÊNCIAS REGULADORAS AVANÇAM EM RITMOS DIFERENTES, MAS NA MESMA DIREÇÃO

Com 24 anos de existência, a ANTT já é referência para agências mais jovens, como a Artesp, de São Paulo, e a recém-criada Artemig, de Minas Gerais — que completou apenas um ano de vida. Foi essa diferença de maturidade, e o que ela revela sobre o setor, que moveu o painel dedicado ao presente e ao futuro da regulação. Diretor-presidente da Artesp, André Isper destacou que a agência bateu 80% de cumprimento da agenda regulatória em apenas seis meses e já mira um passo além da fiscalização tradicional: usar a base de dados da agência para prestar serviço direto ao cidadão, como calcular o tempo de viagem e prever a situação do trânsito em tempo real. Já o diretor-geral da Artemig, Breno Longobucco, argumentou que uma equipe enxuta não impediu resultado técnico consistente, e adiantou que a agência mineira terá seu primeiro concurso público em breve. Barcelos aproveitou o painel para reconhecer a capacitação das agências e cobrar apoio mais amplo, inclusive do Parlamento, para a autonomia orçamentária dos reguladores, hoje pressionada por cortes recorrentes.

MATURIDADE REGULATÓRIA VIRA ARGUMENTO DE VENDA PARA ATRAIR CAPITAL ESTRANGEIRO

Se antes o Brasil precisava convencer o investidor de que a regulação era confiável, o tom do painel sobre a força regulatória brasileira já era outro: o de quem defende posição consolidada. O CEO do Grupo EcoRodovias, Marcello Guidotti, resumiu o argumento sem rodeios: “do ponto de vista regulatório, o Brasil não deixa nada a desejar quando comparado a outros mercados. Isso ajuda muito o diálogo com investidores”. Foi o diretor-presidente da EPR, José Carlos Cassaniga, quem se deteve mais a fundo sobre a origem dessa maturidade. Para ele, a qualidade da regulação brasileira não é acaso, mas resultado de um processo contínuo de aprendizado institucional, construído erro a erro ao longo de décadas. “A linha do tempo da experiência brasileira mostra que os reguladores prestaram atenção às lições aprendidas e montaram projetos de mudança e atualização da regulação importantes para o estágio atual”, afirmou. Cassaniga foi direto ao apontar onde estava o erro histórico que o setor levou anos para corrigir: a alocação de riscos mal distribuída entre os agentes envolvidos. “A alocação equivocada de riscos pode ter contribuído para projetos que não conseguiram avançar nem entregar os benefícios previstos para a sociedade. Hoje temos melhorias na alocação e no compartilhamento de riscos entre concedente, regulador e regulado, criando uma equação mais sustentável para os projetos”, disse, uma leitura que, na prática, resume por que contratos antigos travavam e os atuais têm mais chance de sair do papel. Nem tudo, porém, é só avanço. A diretora executiva de Regulatório da Arteris, Giane Luza Zimmer Freitas, lembrou que mudanças frequentes de orientação de governo, a judicialização de conflitos e a complexidade tributária ainda pesam na percepção de risco de investidores estrangeiros, e defendeu previsibilidade nos mecanismos de reajuste tarifário como condição para reverter esse quadro

CONCESSÕES SE FIRMAM COMO POLÍTICA DE ESTADO, NÃO DE GOVERNO

O painel sobre o novo ciclo político do setor levou ao palco uma provocação direta: o que muda para as concessões quando o poder muda de mãos? Para a secretária nacional de Transporte Rodoviário, Viviane Esse, a resposta está no planejamento, não na conjuntura. Ela lembrou que a meta de 35 concessões anunciada pelo governo não foi um número solto, mas fruto de anos de estruturação: “quando dissemos que faríamos 35 concessões, isso estava muito lastreado em planejamento. Não é uma política de governo, mas uma política de Estado”, afirmou. Como prova de que o mercado responde a esse ambiente, ela citou a evolução na concorrência dos leilões, a média de proponentes por certame saltou de 1,8 para três neste ano. Viviane também usou o palco para adiantar o desenho da próxima geração de concessões, já pensada para o período pós-2026. Segundo ela, o próximo pipeline vai priorizar a experiência do usuário e a incorporação de tecnologia às operações, o que exige um modelo contratual diferente do praticado até aqui: “estamos estruturando a carteira pós-2026 com esse olhar. Precisamos de contratos mais flexíveis, capazes de reagir às mudanças econômicas e incorporar tecnologias que aumentem a eficiência das operações”, disse, citando ainda temas que devem ganhar peso nos próximos editais, como monitoramento de cargas, redução de custos operacionais, conectividade e novas soluções de mobilidade. O CEO da Via Appia, Brendon Ramos, foi na mesma direção ao apontar que o que assusta o investidor não é a alternância de poder, mas a imprevisibilidade institucional. Já o secretário de Infraestrutura de Minas Gerais, Pedro Bruno Barros de Souza, resumiu o clima do painel ao dizer que o setor de rodovias deixou de ser palco de disputas ideológicas — e que, independentemente de quem governe, os investimentos estruturados hoje serão colhidos nos próximos anos.

CONSENSUALISMO DEIXA DE SER EXCEÇÃO E VIRA ROTINA DE GESTÃO

Do improviso à institucionalização: foi esse o caminho percorrido pelo consensualismo nas concessões rodoviárias, segundo os participantes do painel dedicado ao tema. A procuradora-geral do estado de São Paulo, Inês Coimbra, lembrou que o modelo paulista não nasceu de teoria, mas da necessidade prática de destravar projetos travados havia anos. O diretor jurídico da Ecorodovias Capixaba, Eduardo Augusto Alckmin, defendeu que o próximo passo é antecipar o uso do consenso para antes da crise se instalar — “para evitar que o paciente vá para a UTI”, como resumiu. A moderadora do painel, diretora jurídica da Motiva, Renata Simas, sintetizou o espírito do debate em uma frase que já circula como marca do consensualismo brasileiro: “tem dor de cabeça no caminho, mas há remédio para resolver”.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL JÁ MUDA O DIA A DIA DA GESTÃO RODOVIÁRIA

Enquanto alguns setores ainda debatem se vão adotar inteligência artificial, as concessionárias de rodovias já mostram resultado prático. Diretor-presidente da Nova Rota do Oeste, Luciano Uchoa apresentou um “gêmeo digital” da rodovia construído a partir de imagens em alta resolução: onde a fiscalização tradicional, com engenheiro e prancheta em campo, cobria de 6% a 20% da via, o novo sistema processa mais de dez terabytes de dados em dois dias e mapeia 850 quilômetros em uma semana. O CEO da EVMOB, Lucas Zanon Arantes, mostrou uso semelhante voltado à gestão de frotas elétricas, prevendo manutenção e dimensionando pontos de recarga a partir de dados de telemetria. Moderador do painel, o diretor de Tecnologia da EcoRodovias, Afrânio Spolador Junior, fez a ressalva que resumiu o debate: a tecnologia amplia a capacidade de decisão das equipes, mas não substitui o conhecimento técnico nem a decisão humana.

FREE FLOW DEIXA DE SER TENDÊNCIA E VIRA PARTE PERMANENTE DAS CONCESSÕES

Depois de anos concentrado em construir as bases legais do pedágio sem cancelas, o debate sobre o free flow migrou para uma pergunta mais prática: como fazer o usuário confiar no sistema. O gerente de Estudos e Projetos de Rodovias da ANTT, Stéphane Quebaud, resumiu o desafio em uma frase: “o usuário tem que saber que passou por um pórtico”. Do lado operacional, o diretor-presidente da Nova Rodovias, Marcelo Stachow, revelou índices de evasão entre 7% e 7,5% — patamar que considera administrável para a fase de implantação. Já a visão de futuro veio do representante da Kapsch, Antonio Carlos Miro, ao citar experiências internacionais de cobrança por satélite e prever uma mudança na própria lógica de identificação dos veículos: “o veículo passa a ser a TAG”. Quem conduziu o painel, o advogado Luis Henrique Baeta, resumiu o tom geral do debate: o free flow “não é somente pagamento. Já é uma realidade inexorável e imutável”.

REPACTUAÇÕES DESTRAVAM R$ 30 BILHÕES E TRAZEM OTIMISMO AOS CONTRATOS

Fechando o ciclo de painéis sobre a engenharia contratual do setor, a discussão sobre repactuação e revisão de contratos mostrou um humor raro em debates regulatórios: o otimismo. O superintendente de Infraestrutura Rodoviária da ANTT, Fernando Bezerra, defendeu o fortalecimento de mecanismos permanentes de revisão, como as revisões quinquenais e o reequilíbrio cautelar para eventos como crises climáticas extremas, como forma de evitar o acúmulo de passivos contratuais. O economista Daniel Keller, sócio-diretor da UNA Partners, colocou números na conversa: “estamos falando de um pacote de investimentos de R$ 30 bilhões com as repactuações”. Já o diretor de Regulação da Artemig, Carlos Alvisi, trouxe a realidade de uma agência ainda jovem tentando arrumar a casa: com contratos antigos em estágios diferentes e cerca de quinze resoluções para unificar, a meta é concluir o saneamento regulatório em doze meses. Com uma programação que se estendeu por dois dias e mais de 30 painéis, a Bienal das Rodovias 2026 reforçou o diagnóstico de que o setor de concessões rodoviárias vive um momento de maturidade regulatória e financeira — mas que segue atento aos desafios de ampliar fontes de financiamento, incorporar tecnologia e fortalecer a segurança jurídica para sustentar o próximo ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil.