- Artigo de autoria de Ana Maria Castelo (Coordenadora de Projetos da Construção do FGV IBRE), Erick Meneses (Economista), Leandro Beltrão (Superintendente Adjunto de Preços Referenciais do FGV IBRE) e Túlio Barbosa (Vice-Diretor de Relações Institucionais do FGV IBRE).
A infraestrutura brasileira atravessa um momento particular. De um lado, o país consolidou uma carteira crescente de investimentos, impulsionada por concessões, parcerias e maior participação do capital privado. De outro, justamente quando esses projetos avançam para a fase de execução, o setor passou a enfrentar um ambiente de maior pressão sobre custos, restrições de mão de obra e elevada incerteza internacional.
A mudança de cenário fica mais evidente quando se observam os últimos dois anos. Depois de crescer 4,3% em 2024, a construção avançou apenas 0,5% em 2025, enquanto o PIB brasileiro cresceu 2,3%. No último trimestre do ano, a construção recuou 2,3% na comparação com o trimestre anterior e a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) caiu 3,5%, sinalizando perda de dinamismo dos investimentos no encerramento de 2025.
Mesmo diante dessa perda de dinamismo da atividade da construção, a infraestrutura manteve papel relevante na sustentação dos investimentos do setor. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), os investimentos em infraestrutura alcançaram cerca de R$ 280 bilhões em 2025, com forte participação do setor privado. Para 2026, a expectativa permanece elevada, abrangendo transportes e logística, energia, saneamento e telecomunicações.
Esse volume de investimentos, contudo, convive com restrições relevantes à execução. A Sondagem da Construção do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) já apontava, no início do ano, a escassez de mão de obra qualificada como um dos principais entraves para as empresas do setor. Ao longo de 2026, a elevação dos custos dos insumos passou a compor esse quadro, aumentando a pressão sobre os orçamentos das obras. A combinação entre uma carteira robusta de investimentos, dificuldade de contratação e custos mais voláteis tornou a execução dos investimentos previstos mais desafiadora.
É nesse contexto que um evento originado a milhares de quilômetros dos canteiros brasileiros passa a interferir diretamente nos custos e nas condições de execução da infraestrutura rodoviária nacional.
Do petróleo ao canteiro
A escalada das tensões no Oriente Médio observada no ano de 2026 ampliou, em determinados períodos, a volatilidade do mercado internacional de energia e as preocupações relacionadas às principais rotas de transporte de petróleo, com destaque para o Estreito de Ormuz, um dos principais corredores do comércio mundial da commodity.
A consequência foi um ambiente persistente de preços elevados e maior incerteza. Para a infraestrutura rodoviária, essa transmissão ocorre de maneira particularmente direta. O petróleo não é apenas uma variável macroeconômica: está presente na formação do custo de insumos fundamentais e na energia necessária para transportar materiais e operar equipamentos.
O diesel é talvez o exemplo mais evidente. Caminhões, escavadeiras, motoniveladoras, tratores, rolos compactadores e diversos outros equipamentos utilizados em terraplenagem, pavimentação e movimentação de materiais dependem diretamente do combustível. Ao mesmo tempo, cimento, aço, agregados, materiais betuminosos e outros insumos precisam ser transportados até as frentes de serviço, muitas vezes por grandes distâncias.
Por essa razão, uma elevação do diesel afeta simultaneamente duas parcelas importantes do orçamento das obras: a operação dos equipamentos e o transporte. Essa combinação amplia a exposição dos empreendimentos rodoviários, especialmente daqueles com grande movimentação de terra ou elevada distância de transporte de materiais.
O CAP torna a pavimentação ainda mais exposta
Outra ligação direta entre petróleo e rodovias está nos materiais asfálticos.
Por ser derivado do petróleo, o cimento asfáltico de petróleo (CAP) apresenta exposição às condições do mercado dessa commodity e de seus derivados. Essa transmissão, contudo, não é necessariamente imediata ou proporcional, pois os preços domésticos também são influenciados por fatores como câmbio, condições de oferta, refino, logística e estratégias comerciais dos fornecedores.
Esse efeito tornou-se evidente ao longo de 2026, quando materiais asfálticos registraram elevações relevantes de preço em meio à instabilidade do mercado internacional. Em obras nas quais a pavimentação representa parcela significativa do custo total, esse movimento produz impacto direto sobre o orçamento e sobre o planejamento financeiro da execução.
A sensibilidade é maior porque o CAP não atua isoladamente. Seu aumento se combina à elevação do diesel utilizado nas usinas, nos equipamentos de aplicação, no transporte dos materiais e na movimentação ao longo das frentes de serviço. Assim, diferentes componentes do custo podem sofrer pressão simultaneamente.
Esse encadeamento ajuda a explicar por que choques no mercado de petróleo tendem a ser percebidos de forma particularmente intensa na infraestrutura rodoviária, setor fortemente dependente do transporte pesado, da operação de equipamentos e de materiais betuminosos.
O choque não se limita ao diesel e ao asfalto
Os impactos também se propagam de maneira indireta.
Uma obra rodoviária envolve extensa cadeia de fornecedores, e o transporte participa do custo de praticamente todos os materiais que chegam ao canteiro. Mesmo insumos sem relação direta com o petróleo – como cimento, aço ou agregados – podem ser afetados pelo aumento do frete, especialmente quando a distância entre o fornecedor e a obra é elevada.
O câmbio constitui outro canal relevante. Máquinas, equipamentos, componentes e algumas matérias-primas utilizadas pelo setor possuem preços direta ou indiretamente relacionados ao mercado internacional. A valorização do real pode amortecer parte de um choque externo, enquanto uma depreciação pode ampliá-lo. Por essa razão, a cotação internacional do petróleo, isoladamente, não determina a magnitude final do impacto sobre uma obra brasileira.
Há ainda o ambiente macroeconômico. Choques energéticos podem aumentar pressões inflacionárias e ampliar a incerteza sobre a trajetória dos juros. Essa transmissão não é automática, porque a política monetária responde a um conjunto amplo de fatores, mas o canal é relevante para um setor intensivo em capital e dependente de investimentos de longa maturação.
Juros elevados afetam o custo do financiamento, o capital de giro e a aquisição de máquinas e equipamentos. Quando esse efeito ocorre simultaneamente à elevação dos custos dos insumos, a pressão sobre empresas e projetos tende a se intensificar.
Essas pressões ganham relevância justamente porque coincidem com um momento de expansão dos investimentos em infraestrutura. O desafio, portanto, não está apenas em estruturar projetos e mobilizar recursos, mas em criar condições para que as obras avancem no ritmo planejado.
Mais resiliência para executar
Eventos geopolíticos não podem ser controlados por empresas, concessionárias ou pelo poder público brasileiro. A exposição de uma carteira de investimentos às suas consequências, porém, pode ser gerenciada.
Nesse cenário, ganha importância a capacidade de monitorar preços de combustíveis, materiais asfálticos e outros insumos críticos em relação à composição efetiva dos custos das obras e aos respectivos cronogramas de execução.
O planejamento de suprimentos também se torna mais relevante. Em períodos de maior volatilidade, decisões sobre estoques, programação de compras, fornecedores e logística podem reduzir a exposição a oscilações abruptas. Da mesma forma, informações atualizadas sobre custos permitem antecipar impactos e ajustar decisões de planejamento e execução.
Também se torna relevante aperfeiçoar a gestão de riscos e a atualização das informações utilizadas no planejamento e na orçamentação. Quanto mais rapidamente os movimentos de mercado forem incorporados às análises técnicas, maior tende a ser a capacidade de antecipar impactos e ajustar decisões de execução.
Há ainda espaço para avaliar, caso a caso, alternativas de engenharia que possam reduzir a exposição de determinados projetos à volatilidade de insumos específicos. Essa avaliação deve ser realizada com base em critérios técnicos e econômicos, considerando custos de implantação e manutenção, ciclo de vida, disponibilidade regional de materiais, logística, tráfego e desempenho esperado, sem pressupor superioridade prévia de determinada solução tecnológica.
Da mesma forma, a evolução de equipamentos elétricos e de outras formas de motorização pode, progressivamente, diminuir a dependência exclusiva do diesel em determinadas operações.
Essas alternativas, contudo, não devem ser apresentadas como respostas universais ao aumento do petróleo. Cada solução possui custos de implantação, requisitos operacionais, condições de aplicação e desempenho próprios. A comparação deve considerar o ciclo de vida do empreendimento, a disponibilidade regional de materiais, a logística, o tráfego e as características técnicas de cada projeto.
O episódio de 2026 deixa, assim, uma mensagem mais ampla para o setor. Um ciclo robusto de investimentos exige mais do que projetos e financiamento. Exige mão de obra, informação confiável sobre custos, planejamento de suprimentos, capacidade de execução e soluções de engenharia adequadas a diferentes cenários.
O país construiu uma carteira relevante de investimentos em infraestrutura. O desafio agora é preservar sua execução diante de choques externos capazes de pressionar custos e cronogramas.