ALTO BRILHO: VIA CRISTAIS

Tulio Abi-Saber, CEO – Via Cristais

Executivo experiente e tradicionalmente voltado à infraestrutura, das telecomunicações à indústria dos transportes, Tulio Abi-Saber, tem diante de si a tarefa de injetar o padrão cultural de excelência da VINCI S.A., gigante francesa e líder mundial em concessões, soluções energéticas, construção, em seu novel e rodoviário “time Brasil”, com o inconfundível sotaque mineiro, na gestão e operação da Via Cristais (BR-040, entre Belo Horizonte – MG e Cristalina – GO). Mais do que qualificado e preparado, o também membro do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias – Melhores Rodovias do Brasil – ABCR, falou à RodoVias&Infra sobre esta nova etapa, que também promete elevar padrões técnicos e níveis de serviço na gestão rodoviária do país.

RodoVias&Infra: Como se deu a chegada da Vinci à concessão da Via Cristais, desde as perspectivas e tratativas iniciais, passando pela segurança jurídica oferecida pelo atual ambiente regulatório, até o cenário encontrado na rodovia e a “virada de chave” promovida nos primeiros meses de operação?

Tulio Abi-Saber: A Via Cristais é a primeira rodovia 100% VINCI, no Brasil, que já estava presente no país na parte de concessões de aeroportos e em participação com a Entrevias. Certamente, é necessário deixar bem claro um ponto muito importante: a ANTT hoje é uma agência de padrão global. É uma referência mundial em termos de qualidade de regulação. E este é um mérito das equipes que estão à frente dela hoje, do trabalho que vem sendo feito, de seus times, seus técnicos, suas lideranças, que têm uma visão muito construtiva das coisas. Não custa lembrar que há uns 10 anos, as concessões no Brasil passavam por um momento muito difícil, sem um direcionamento adequado. E a Agência respondeu de forma brilhante. Na verdade, todos os atores responderam muito bem. O Tribunal de Contas da União ‒ TCU, entre outros. Houve uma convergência, e esses órgãos líderes foram fundamentais. Eu vejo, que de forma geral, tivemos um amadurecimento, em que prevaleceu a acertada percepção de que os objetivos são comuns e ultimadamente, a prestação de um serviço público delegado, de qualidade. Houve o entendimento que, em muitas vezes, lidar com um contrato de concessão, é lidar com o imponderável ao longo do tempo. E esse imponderável pode vir de forma positiva e negativa. Por outro lado o marco regulatório no Brasil é muito moderno. Muito avançado. Preserva os interesses do tripé regulatório, os usuários, poder público e investidores, de forma que haja um equilíbrio saudável. E isso atrai investidores de qualidade. Então aí está a segurança jurídica. Esta estabilidade de longo prazo, que permite segurança para que se façam os investimentos de longuíssimo prazo, em um cenário estável, mesmo com guerra, como estamos vendo na Ucrânia e no Irã.

Qual exatamente era o cenário quando da chegada de vocês?

Nós encontramos, é verdade, uma rodovia que estava muito ruim, muito depreciada. As instalações, bases operacionais, praças de pedágio, estavam bastante danificadas. Mas nós promovemos rapidamente a recuperação de tudo isso, promovemos a recuperação da estrutura da rodovia, desde elementos de drenagem que estavam completamente não funcionais, até o pavimento degradado, iluminações que não funcionavam, sinalizações totalmente fora de especificação, defensas e sistemas de proteção que já não cumpriam suas funções a contento. Era necessário que entrássemos rapidamente promovendo uma renovação da rodovia. Logo no início, nas primeiras 2 semanas, nós tapamos mais de 4,2 mil buracos. E não estamos falando dos pequenos. Estamos falando de crateras mesmo. Em termos práticos, trouxemos a rodovia de volta à vida. De volta à segurança. De volta à fluidez. E de volta a níveis de segurança ao usuário.

Como o senhor citou a segurança, sabemos que houve uma movimentação muito forte neste sentido, especialmente quanto à sinalização, correto?

Nós refizemos 100% da sinalização, porque acreditamos que sinalização é segurança. Ainda que nós tivéssemos a presença de elementos, dispositivos e demarcações que passassem nos níveis mínimos de refletância, nós optamos por substituir. Uma questão de dar segurança ao usuário e passar pra ele, a percepção de que realmente havia alguém cuidando da rodovia. Então, nós refizemos as sinalizações verticais, com mais de 9,2 mil placas, recuperamos elementos de proteção, defensas, instalamos novas defensas em 28 km adicionais, recuperamos cercas que estavam rompidas em mais de 50 km. Um pouco antes falei de iluminação, que não estava funcional: ela foi recuperada em 13 municípios. Somente de bueiros que estavam entupidos, foram mais de 650. Quase um trabalho arqueológico. Fizemos também muitos trabalhos de meio ambiente e segurança, que foram também além do contrato, obedecendo às premissas de qualidade da VINCI. Um bom exemplo, foi o trevo que parte de uma interseção com uma rodovia estadual que leva à cidade de Pompéu. Não é um trevo de grande volume. Mas tem tráfego de bitrens, ônibus e demais veículos leves, onde o motorista tinha que aguardar observando à frente, atrás e ao lado, e fatalmente, ocorriam acidentes e sempre de alta gravidade. Ao percebermos isso – e é preciso ressaltar que, como prestadores de serviço público concedido, temos que ouvir muito atentamente a população, que é afinal quem usa o serviço, e suas lideranças ‒ nós buscamos as licenças já disponíveis, e pudemos, antes das intervenções de maior monta para a solução definitiva, implantar uma terceira faixa, fazendo com que o motorista, ao invés de observar 3 sentidos, observe apenas um. Com isso, nós conseguimos zerar os acidentes neste trevo. Do ponto de vista da infraestrutura, algo simples, um investimento, uma entrega que fizemos, extrapolando o contrato, mas que leva esse nível de serviço mais elevado da VINCI para o usuário. Além disso, nós refizemos 1,5 mil km de faixa, em termos de pavimento o que dá aí 2/3 do segmento, desde tratamento superficial, fresagem e recomposição, micro revestimento, e trabalho profundo, atacando com diversas soluções cada patologia, dentro de um padrão de intervenções iniciais, com objetivo de recuperar segurança e trafegabilidade. Diferente de um trabalho estruturante de longo prazo que leva mais tempo. Esses outros trabalhos mais pesados, se darão ao longo dos próximos 4 anos, de forma fracionada, de maneira que até o final, nós teremos uma rodovia plenamente recuperada, com parâmetros de concessão rodoviária internacional, que é o padrão ANTT em seus contratos mais recentes. Mas se você for comparar, hoje, a rodovia já está muito boa, em vista de quando a encontramos. Como abordamos segurança, veja que no trecho metropolitano de Belo Horizonte, nós tínhamos 11 passarelas completamente “apagadas”, sem qualquer iluminação, gerando um clima de insegurança para as pessoas. Nós revertemos isso a partir de uma iluminação com luminância superior, alimentada com energia solar, super efetiva. Note que esta também é uma medida que extrapola o contrato, ao influenciar diretamente na segurança pública. Da mesma forma, antecipamos os PMVs (Paineis de Mensagem Variável), pois temos um programa de comunicação muito forte, voltado para o usuário, levando informações. De novo, também partimos para escutar a comunidade, para resolver problemas que estiveram durante algum tempo sem tratamento adequado, como alguns reparos, uma drenagem, coisas pequenas, mas que fazem toda diferença pra quem está no entorno.

Ainda sobre segurança viária, um tema muito discutido neste âmbito, são as programações, ações e iniciativas. Como a Via Cristais está inserida neste contexto?

Nós subscrevemos à Coalizão pela Segurança Viária, e isto prevê uma série de ações. Estamos em processo de adesão ao “Afaste-se”, movimento o qual aproveito para parabenizar os nossos parceiros e, o qual entendemos que precisa ter seu alcance ainda mais ampliado a nível nacional. É preciso transformá-lo em cultura, e, nós somente alcançaremos isso com massa crítica. Muito volume de pessoas. Todos os nossos projetos de ampliação, passam por uma revisão de segurança. Também, algo que vai além do contrato, além da norma. Então, todo o processo de elaboração de projetos tem essa etapa, onde avaliamos, por um grupo de trabalho, o que de melhor pode ser feito para cada um deles. Também temos outro grupo de trabalho em operações, de prevenção e redução de acidentes, que engloba os diversos aspectos destas dinâmicas, com feedback da infraestrutura e também projetos. Nós estamos trazendo para o Brasil, uma elevação no nível de exigência de sinalização viária para todos os serviços na rodovia. Uma decisão nossa, de liderar esse processo, junto a nossos parceiros, e assumindo os custos adicionais. Por que nós acreditamos que é nosso papel colaborar neste sentido. Ainda, revisamos recentemente o nosso manual de segurança e operação viária, incluindo requisitos internacionais, para podermos enriquecer e melhorar este ambiente do qual dependem, tanto nossos usuários, quanto nossos colaboradores. E aí estamos falando da utilização de atenuadores de impacto, de sinalizações mais ostensivas, robustas, maiores, majoritariamente iluminadas e com distâncias maiores, para que elas sirvam com distinção ao propósito de alertar, ordenar o tráfego, sua velocidade e também perdoar. Claro, que todo este esforço voltado à segurança viária, também é algo que estamos olhando em nossos parceiros, que obrigatoriamente, devem demonstrar maturidade nesse sentido, até porque este é um critério de seleção para trabalhar com a Via Cristais. De forma geral, vejo um ciclo positivo, com empresas do setor muito bem posicionadas, com a indústria sempre buscando mostrar o que tem de melhor e, por outro lado, nos colocamos como um parceiro que está disposto a fomentar e subsidiar esses avanços.

Falando um pouco então, dos grandes trabalhos, das grandes obras que se pode esperar entre os próximos passos da Via Cristais?

Este ano, em termos de entregas, teremos duas balanças HS-WIM (pesagem em velocidade), dois PPDs (Postos de Parada e Descanso) e como já mencionei, vamos antecipar os PMVs, em mais 11 locais. Claro, estamos contemplando essas intervenções com base nas aptidões das regiões, que possuem tráfego fortemente voltado à mineração e ao agro, então, dentro desta política de servir com excelência é que surgem esses PPDs, justamente para atender a esse usuário pesado, para que tenham um local seguro, digno para poderem descansar. Mas é 2027 o ano das grandes entregas, com uma duplicação de 10 km em Cristalina, com mais 3 km de vias marginais e 3 passarelas novas. Estas previstas para o final de 2027. Já a parte da saída do trecho metropolitano de Belo Horizonte, estamos com uma maior demanda de investimentos, com um aumento de capacidade do anel viário até o Ceasa, que abastece todo o estado. É um projeto transformacional. Uma transformação total para a região, que é muito congestionada. É um conjunto de obras considerável, ao qual será ainda somada a implantação de fibra ótica em todo o segmento da concessão, bem como as câmeras de monitoramento, que além de agilidade para a operação, irão influenciar ‒ tal como falamos da iluminação um pouco antes ‒ na segurança pública. A rodovia coberta, oferece uma outra condição.

E quanto a um dos principais objetos da Via Cristais, que é a operação propriamente dita? Como foi esse processo e como está, atualmente esse desenvolvimento?

Entendemos que tínhamos que começar a operar o quanto antes. E já desde o primeiro dia, estávamos operando em 100% de capacidade, com as bases operacionais funcionando, rádios, sistema de arrecadação, praças, CCO, tudo funcionando. Nós então promovemos a reforma completa das instalações, executadas em alto padrão, sendo muito adequadas para os usuários. Como disse, estamos investindo muito em comunicação com esse usuário, e em breve, teremos este serviço, mas feito de uma forma inovadora. Nós entendemos, que a comunicação deve oferecer por toda a via, o que ele mais busca: segurança e fluidez, com assertividade no trajeto. Então, a ideia é chegar a este usuário, da maneira que ele preferir, online e em tempo real. A ideia é que ele esteja sempre o mais bem informado possível, sobre os mais recentes acontecimentos na rodovia. Estamos falando de cruzamento de canais, integrando plataformas como Waze, Whatsapp, Google Maps, e redes sociais, para alimentar todos os nossos canais de comunicação e a operação. Para isso, estamos investindo muito em sistemas de automação e Inteligência Artificial para agilizar este processamento e agilidade de resposta coordenada entre todos os elementos. Mencionei o CCO, desde o dia 1, foi implantado o nosso CCO em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, provisório, mas que já conta com todas as características, conformação, layout e equipamentos de um CCO definitivo, no mesmo padrão, com todos os recursos necessários. Em termos de frota, também estamos com avanços importantes, com todos os veículos rastreados por satélite, monitorados por telemetria, dotados de câmeras associadas à IA, que filmam tanto a estrada quanto o motorista. Neste caso, as filmagens servem tanto para avaliarmos os segmentos da estrada, quanto as situações, a qualidade dos atendimentos operacionais que acontecem e, no caso da que filma o motorista, identificarmos qualquer elemento de distração que ele possa ter. É uma operação 24×7. Como segurança é um valor fundamental da Via Cristais, é muito importante termos também os nossos colaboradores seguros. É um monitoramento ativo. Outro tema definidor para as operações, são as nossas atividades em cooperação com os demais entes do serviço público, PRF, Polícia Rodoviária Estadual, Polícia Militar, Polícia Civil, SAMU, Bombeiros, etc. Junto à prefeitura de Belo Horizonte, temos uma coordenação, com o Centro de Controle, para prestar atendimentos, algo necessário se observarmos a complexidade do ponto de chegada na capital. É um ponto com muitas influências, do município; do tráfego de longa distância, de passagem; da região metropolitana em si como um todo além do anel rodoviário em si, que possui seus próprios desafios de operação. É então uma operação conjunta, que mira muito em fluidez. É uma iniciativa e são parcerias que estão performando. Falei que nós temos um compromisso muito grande com sustentabilidade. E ele se dá também nas operações. Desde o primeiro dia, nós utilizamos energia elétrica 100% renovável, por meio de usinas solares dedicadas, que geram a energia necessária para operação da concessão. Toda a iluminação agora é de led. Inclusive a iluminação viária. Também temos um grande programa de redução de emissões, que em uma concessão, respondem em sua maior parte por energia elétrica e combustível, cerca de 90% ou mais, a depender das características. Nossa pegada, portanto em energia elétrica está zerada e, no tocante a combustíveis, estamos em um processo, porque todos os nossos veículos leves estão rodando a etanol. Independente de preço, por que é uma força do potencial energético brasileiro e nos ajuda na meta de redução. Já quanto aos veículos pesados, estamos fechando uma parceria com uma montadora, para promover a descarbonização destes, em breve. Até 2030, temos o compromisso de zerar o envio de resíduos para aterros sanitários, algo que já estamos bem perto de conseguir, graças a parcerias com comunidades e cooperativas de reciclagem, compostagem que fazem o reaproveitamento desses resíduos. Por fim, temos o compromisso de reduzir à metade o nosso consumo de água. Por sinal é algo também que estamos próximos de alcançar, pois já reduzimos em mais de 40% nosso consumo de água. Estas são preocupações que vão muito além do que é uma concessão. São também, metas e objetivos corporativos, em um compromisso mundial.