O País do Presente – À frente da ANTT, Guilherme Sampaio conduz uma agenda marcada por concessões,
tecnologia, segurança jurídica e integração logística. Com trajetória iniciada no setor de transportes em Minas Gerais, o diretor-geral leva para a Agência uma visão prática da operação e da regulação. Nesta entrevista à RodoVias&Infra, ele fala sobre o novo ciclo de investimentos privados, os 21 leilões realizados em pouco mais de três anos e a reorganização interna da Agência. A conversa revela uma ANTT voltada a projetos de longo prazo, com foco no usuário, na previsibilidade regulatória e no desenvolvimento nacional.

RodoVias&Infra: Diretor, para começarmos, gostaríamos que o senhor contasse um pouco da sua trajetória. Como o senhor chega ao setor de transportes e, posteriormente, à ANTT?
Guilherme Sampaio: Minha formação é jurídica. Sou formado em Direito e comecei no setor de transportes há quase 20 anos, ainda como estagiário em uma empresa de transporte de cargas em Minas Gerais, meu estado de origem. Ali eu me formei, continuei advogando para essa empresa e, depois, fui para um escritório especializado em transportes.
Nesse escritório, tive contato com diferentes áreas: transporte de cargas, transporte de passageiros, concessões de rodovias, um pouco de ferrovias, além da assessoria a sindicatos e federações do setor rodoviário. Foi uma escola muito importante, porque me permitiu conhecer o setor de forma ampla, tanto pelo lado jurídico quanto pelo funcionamento real das operações.
Depois, quando eu estava em um jurídico corporativo, em um sistema educacional, fui convidado a vir para Brasília para ser chefe de gabinete da presidência da Confederação Nacional do Transporte, a CNT. Eu sempre tive interação com a ANTT, porque regulação era a minha área de atuação, mas nunca tive a pretensão de exercer cargo público.
Em Brasília, participei de conselhos e câmaras técnicas, como conselhos ligados à Previdência Social, câmaras técnicas do Contran e outros fóruns institucionais. Em 2021, fui indicado para diretor colegiado da ANTT e assumi em julho daquele ano. Fui sabatinado junto com meu antecessor, Rafael Vitale. Entramos juntos na Agência, e eu me tornei também seu substituto.
Esse processo foi muito importante para a evolução da ANTT. O Rafael teve um papel relevante de organização interna, e nós conseguimos, juntos, recuperar a parte institucional da Agência, fortalecer a gestão de pessoas, aprimorar os processos de governança e, como se diz em Minas, colocar o trem nos trilhos.
Fui indicado para diretor-geral em dezembro de 2024. Depois do período de sabatina, em fevereiro de 2025 me tornei diretor-geral da Agência. Em agosto, fui sabatinado e me tornei diretor-geral efetivo da ANTT, com mandato até 18 de fevereiro de 2030. Ainda temos uma boa jornada pela frente.
Desde 2021, a Agência passou por um período de entregas expressivas, especialmente no campo das concessões. Como o senhor avalia essa evolução?
A Agência fez muita coisa de 2021 para cá. Muita coisa mudou. Gosto de fazer uma referência ao Juscelino Kubitschek, que falava em 50 anos em 5. Nós fizemos isso na ANTT. Esse resultado é fruto de um trabalho coletivo.
Primeiro, olhamos para dentro de casa: processos, procedimentos, governança e organização interna. A partir daí, estruturamos o que chamamos de ProRev, o processo de revolução interna da Agência. Essa revolução foi, antes de tudo, comportamental. Houve uma mudança de mentalidade dos diretores, servidores e colaboradores.
Também fizemos uma reorganização regulatória, contratual, de gestão contratual e de fiscalização, além da implementação de tecnologias internas e externas. Com isso, a ANTT ganhou capacidade de entrega em suas quatro grandes frentes de atuação: concessões de rodovias, concessões de ferrovias, transporte de passageiros e transporte de cargas.
É importante lembrar que a ANTT é uma agência de Estado, não de governo. Os diretores são sabatinados e têm mandatos fixos justamente para garantir projetos de longo prazo. A partir dessa estrutura, conseguimos realizar novos leilões e também resolver contratos estressados, ou seja, contratos que não estavam performando.
Um caso emblemático foi a Rota do Oeste, no Mato Grosso, na BR-163, um corredor essencial para o Brasil Central. Ainda no governo anterior, conseguimos otimizar aquele contrato e construir uma solução para um ativo muito importante.
Com o governo atual e com o ministro Renan Filho, nós não apenas fizemos novos leilões, como também solucionamos problemas internos e otimizamos contratos. Ontem, realizamos o 21º leilão em um período de três anos e cinco meses. Isso mostra a dimensão do ciclo que estamos vivendo.
É difícil, em infraestrutura, planejar, executar e colher frutos em um período curto. Mas temos conseguido fazer isso. É uma jornada fruto de um trabalho técnico, dedicado, construtivo e institucional da ANTT, em alinhamento com o Tribunal de Contas da União, o Ministério dos Transportes, a Infra S.A., ouvindo o mercado e os setores, mas sempre com foco principal no usuário. Hoje, podemos dizer que vivemos um ciclo virtuoso para o Brasil, com obras de norte a sul, de leste a oeste do país.
A segurança jurídica é apontada como um dos fatores centrais para atrair investidores. Como a ANTT trabalha esse conceito na prática?
Todo investidor procura três coisas: estabilidade, previsibilidade e segurança. Ele quer normas estáveis, contratos previsíveis e a segurança de que aquilo que foi pactuado será cumprido também por parte do poder público.
Hoje, vemos investidores nacionais e internacionais voltando a olhar para o Brasil. Nos leilões, há vários concorrentes, novos entrantes e investidores estrangeiros, incluindo franceses, fundos soberanos, sauditas, chineses e espanhóis regressando ao país. Isso acontece porque eles enxergam esses três requisitos.
E, nesse contexto, o papel da agência reguladora é fundamental. A ANTT precisa dar capacidade de execução, gestão, regulação e fiscalização aos contratos. Mesmo em períodos eleitorais, que normalmente trazem insegurança, instabilidade, expectativas e preocupações, os leilões continuaram sendo bem-sucedidos. Isso ocorre porque os investidores sabem que há uma agência reguladora forte, capacitada e reconhecida nacional e internacionalmente para fazer a gestão desses contratos.
As rodovias concedidas apresentam, historicamente, indicadores superiores de qualidade operacional e segurança. Quais avanços a ANTT pretende estimular na nova geração de contratos?
Guilherme Sampaio: Hoje, quando o usuário utiliza uma infraestrutura, ele não pensa mais apenas em bom pavimento, rodovia duplicada, viaduto ou passarela. Ele quer mais. Quer uma experiência diferente, mais próxima daquilo que vê em outros países.
Por isso, temos nos preocupado muito com tecnologia nas concessões. O free flow, ou pedágio eletrônico, é um exemplo claro. É uma solução de ganha-ganha: traz maior fluidez, reduz a perda de tempo, diminui emissões de gases de efeito estufa e permite novas formas de justiça tarifária.
Quem utiliza TAG já tem redução tarifária. O desconto para usuário frequente também reduz o custo para quem mais utiliza a rodovia. Estamos caminhando para um modelo de pagamento por trecho, com mais justiça e cuidado tarifário.
Outro ponto importante é a pesagem em movimento. Hoje, em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, ainda existem balanças estáticas, com filas enormes. Muitas vezes, o caminhão para mesmo estando com o peso correto. Isso não é eficiente, não é seguro e também não é adequado para o pavimento.
Com a pesagem em movimento, todos os veículos poderão ser pesados de acordo com a velocidade da via. Isso traz segurança viária, ganho de fluidez, menor degradação do pavimento, redução de emissões e mais equidade concorrencial. Quem transporta com excesso de peso pratica concorrência desleal em relação ao transportador autônomo ou à empresa que cumpre as regras.
Também estamos avançando em conectividade, pontos de parada e descanso para caminhoneiros, corredores sustentáveis, mitigação de emissões de gases de efeito estufa, carregamento de veículos elétricos e integração multimodal.
Quando chegamos à ANTT, em 2021, tínhamos cerca de 12 mil quilômetros de rodovias concedidas. Ao final de 2026, devemos chegar a 19 mil quilômetros. Vamos sair de 22 contratos para 40 contratos. Seguindo a carteira de projetos que temos, no ano seguinte podemos chegar a 25 mil quilômetros de rodovias concedidas. Ou seja, vamos dobrar a malha rodoviária federal concedida.
A integração multimodal é um dos grandes desafios do país. Como a ANTT enxerga o papel das ferrovias nesse processo?
Temos trabalhado justamente com essa visão de integração entre os modos. O governo atual colocou um olhar muito importante sobre o setor ferroviário e sobre a necessidade de equilibrar a matriz de transportes.
Hoje, aproximadamente 65% da matriz está nas rodovias e cerca de 15% nas ferrovias, depois vêm os demais modos. Isso não significa que o modal rodoviário seja algo deletério para a infraestrutura nacional, mas é claro que precisamos ampliar a presença ferroviária, especialmente em um país de dimensão continental como o Brasil.
Temos cerca de 30 mil quilômetros de concessões ferroviárias, mas apenas um terço disso está operacional. Por isso, está sendo feito um trabalho de renovação antecipada das ferrovias existentes, com antecipação de investimentos, solução de passivos, novos corredores estruturantes e encaminhamento para malhas que estão sendo devolvidas ou que não estão operacionais.
Neste ano, estamos retomando os leilões ferroviários, algo que não acontecia desde 2021. Há corredores importantes em perspectiva, como a ligação entre o Porto de Vitória e o Porto do Açu, além da Ferrogrão, conectando Mato Grosso ao Pará.
Também temos a perspectiva de concluir renovações antecipadas, como a da Ferrovia Centro-Atlântica e da Transnordestina Logística, na parte Nordeste, além da possibilidade de relicitação da Malha Oeste, no Mato Grosso do Sul.
Tudo isso precisa ser pensado em um novo desenho, com integração intermodal e multimodal, resolvendo também trechos abandonados. O avanço ferroviário tem uma dinâmica de médio prazo, diferente do ambiente rodoviário, mas essa agenda de rodovias e ferrovias deixará um legado importante para a infraestrutura do país nos próximos 10 anos.
Hoje, já temos cerca de R$ 400 bilhões em investimentos contratados apenas em rodovias, considerando os 21 leilões realizados. A expectativa é que essa evolução também aconteça em ferrovias, sempre em diálogo com outras instituições, como a Agência Nacional de Transportes Aquaviários, para pensar a interligação com os portos. Rodovias, ferrovias e portos precisam ser pensados de forma integrada.

Considerando que apenas uma parte da malha ferroviária está plenamente operacional, é possível imaginar o Brasil utilizando de forma mais ampla esses 30 mil quilômetros?
É possível avançar progressivamente. O setor ferroviário exige investimentos muito altos e depende de bons projetos e linhas de financiamento. Nesse ponto, destaco muito o papel do BNDES, que já atua em rodovias e deve trabalhar em ferrovias.
Vejo um caminho muito interessante para o país, com uma agenda de Estado, independente do governo que seja eleito. Estamos diante de uma agenda progressiva para os próximos anos, que pode ampliar a operação da malha e dar mais eficiência à infraestrutura nacional.
Aproveitando o tripé da atuação da Agência, como a ANTT tem trabalhado o transporte de passageiros e a fiscalização?
Temos buscado uma regulação responsiva, uma regulação por incentivo. A ideia é estimular os regulados a estarem aderentes às normas da Agência, à legislação e às decisões judiciais, sempre com foco na segurança, que é o ponto primordial para o usuário.
No transporte de passageiros, o Brasil tem uma dimensão continental e ainda não possui um substituto perfeito, como trem ou metrô em escala nacional. Por isso, o transporte rodoviário de passageiros tem um papel essencial. O Brasil pode se orgulhar desse sistema, porque ele é uma referência mundial em quantidade, qualidade e atendimento.
Hoje, praticamente todos os municípios brasileiros são atendidos. A Agência tem seguido um processo de abertura de mercado, mas uma abertura sustentável, com novos entrantes que cumpram as regras e tenham foco no usuário, na regularidade, na segurança, na assiduidade e na integração nacional.
Quando se olha apenas para os corredores mais rentáveis, como Rio-São Paulo, Brasília-Minas e outros trechos de grande volume, há uma tendência natural do operador de buscar o chamado “filé”. Mas também há os trechos de menor atratividade, que precisam ser pensados em rede. É isso que a Agência tem buscado fazer.
Também há estudos do governo federal para a retomada do transporte de passageiros sobre trilhos. Vejo essa como uma agenda de médio e longo prazo.
Em relação à segurança viária, temas como free flow, HS-WIM, conectividade e velocidade média têm ganhado força. Como a Agência enxerga essas inovações?
Estamos passando de um ciclo apenas de obras para um ciclo também de implementação de tecnologias. E, na próxima década, teremos o maior ciclo de obras e investimentos privados da história do país.
Nesse contexto, tecnologias como HS-WIM, free flow e conectividade são fundamentais. Elas ajudam a melhorar a fluidez, a segurança e a eficiência do sistema. Quando comparamos rodovias concedidas e não concedidas, há uma média de redução entre 24% e 30% na quantidade e na gravidade dos acidentes.
Por isso, novas formas de fiscalização e segurança, como a velocidade média, que já vem sendo dialogada com o Contran, podem ser caminhos importantes para avançarmos.
A Agência também tem olhado para a sustentabilidade econômica, financeira e ambiental dos contratos. Nossos projetos de rodovias e ferrovias têm preocupação com carbono neutro, redução de emissões de gases de efeito estufa e novas formas de cobrança que possam diminuir tarifas e ampliar investimentos.
Outro instrumento importante é o sandbox regulatório, que estimula o setor privado, concessionários e prestadores de serviço a trazerem novidades para o usuário.
Em 2026, a ABCR completa 30 anos de atuação. Como o senhor avalia a importância dessa parceria institucional para o avanço das concessões no Brasil?
A parceria é fundamental. O papel da ANTT não é ser governo. A Agência implementa políticas públicas e investimentos dentro das expectativas existentes, mas respeitando os regulamentos e sua autonomia.
A ANTT não existe para defender os interesses das concessionárias. Ela existe para fiscalizar que a concessionária cumpra o contrato e execute suas obrigações. Ao mesmo tempo, também não se trata apenas de atender qualquer demanda do usuário sem considerar o equilíbrio do sistema. O usuário precisa ter um serviço de qualidade, seguro e efetivo, de acordo com a tarifa que paga.
Nosso papel é harmonizar esse processo. Somos autônomos e independentes, mas não podemos ser alheios às necessidades desse ecossistema. Entidades como a ABCR são fundamentais na construção de políticas e proposições de soluções efetivas.
Vejo que a ABCR evoluiu muito nos últimos anos, com sugestões de melhorias regulatórias, propostas de modelagem, defesa dos interesses de seus representados e, sobretudo, defesa da infraestrutura e dos usuários. A ABCR propõe, critica, constrói e é parceira dos projetos voltados ao desenvolvimento da infraestrutura nacional.
A Bienal de Rodovias se tornou parte do calendário nacional e tem sido muito importante para trazer tecnologia, inovações e conexões entre o público, o privado e o usuário. Muito do que avançamos passa por essa discussão plural, na qual a ABCR tem papel fundamental.
Inclusive, a entidade tem liderado uma defesa importante: a autonomia financeira das agências reguladoras, como a ANTT. Hoje, podemos dizer que a Agência tem autonomia administrativa e decisória. Não há captura política nem econômica. Mas ainda existe o desafio do recurso. É preciso refletir sobre o que está na lei e sobre modelos internacionais em que as agências possuem autonomia financeira.
Vejo a ABCR como uma entidade fundamental, que nesses 30 anos fez parte de mudanças significativas, deixou legado e fará ainda mais diferença nos próximos anos.

Para encerrarmos, que legado o senhor espera deixar à frente da ANTT?
Vejo como legado a entrega do maior ciclo de obras e de investimentos privados que o Brasil já viu. Um ciclo capaz de melhorar a infraestrutura nacional como um todo, com integração entre rodovias, ferrovias e portos.
Queremos ampliar a capacidade de conectar pessoas, movimentar cargas e fortalecer as instituições, especialmente a própria ANTT. O usuário, que é o nosso cliente, precisa receber o que há de melhor em infraestrutura e tecnologia.
Queremos que o Brasil seja referência naquilo que faz e que consiga deixar para trás a ideia permanente de país em desenvolvimento para se tornar, de fato, um país desenvolvido.
O país do futuro está cada vez mais próximo de ser o país do presente. Precisamos caminhar a passos largos nessa direção, com o papel importante da Agência, do Ministério, do setor privado, das associações e dos usuários. Temos uma agenda virtuosa e a oportunidade de, todos juntos, deixar um legado nacional.