MOTIVA

SEGURANÇA: VALOR CENTRAL

Os caminhos da Segurança viária, já há muitos anos pauta fixa de RodoVias&Infra, são também os caminhos das “Melhores rodovias do Brasil”, cujos expoentes, estão em sua maior parte, representados pelas concessões rodoviárias do país.

E, naturalmente, falar das concessões nacionais torna mandatória a inclusão de um nome de destaque, que atende atualmente pela alcunha de Motiva. E, no quesito segurança viária, evidentemente surge o nome de Fausto Camilotti, diretor de Operações da gigante brasileira, engenheiro com 27 anos de casa e, não por acaso, um dos pioneiros a trazer uma visão mais holística para o tratamento do tema.

Dinâmico, experiente e um intransigente defensor dos valores que preservam e salvam vidas nas estradas do país, ele falou a uma das equipes deste periódico sobre diversos aspectos da disciplina, sua evolução e, claro, o revisto, completo, detalhado, com ilustrações, normas técnicas, especificações e mais de 300 páginas, manual de “Sinalização Temporária da Motiva Rodovias para Obras e Serviços de Manutenção, Conservação, Monitoramento e Topografia”, elaborado sob suas orientações.

Vocacionado desde muito cedo, a partir de sua entrada no antigo grupo de Concessionárias CCR, atual Motiva, aos 19 anos de idade, como estagiário no setor de engenharia e projetos, o engenheiro Fausto Camilotti, atual diretor de Operações da Motiva Rodovias, é dessas personalidades marcantes no segmento de Segurança Viária.

Vocal, articulado e bastante eloquente, é figura de destaque nas mais concorridas e aguardadas preleções em workshops, seminários e congressos que buscam abordar o tema de forma técnica e séria.

Em uma conversa que ainda se desdobrará na continuidade da pauta em edições subsequentes, um compromisso estabelecido entre cavalheiros, o respeitado especialista iniciou a conversa com RodoVias&Infra comentando um pouco sobre a sua trajetória, que está umbilicalmente ligada a importantes desenvolvimentos e inovações trazidos para as pistas brasileiras. O mais importante deles, talvez, a mudança de mentalidade para a criação do que ele classifica como “cultura de segurança”.

Chegado à plataforma matricial de rodovias da Motiva, existem mais duas, a de Trilhos, com os metrôs, e a de Aeroportos, em 2022, ele assume a responsabilidade por toda a operação rodoviária da Motiva Rodovias.

“Associada a MBAs de infraestrutura, engenharia de segurança e transportes, alguns liderados pela ABCR, a minha formação inteira é voltada para segurança viária, voltada a esse ambiente de segurança. Quando entrei, em 1999, nós começamos discutindo com a própria Agência Reguladora de Serviços Delegados de Transporte do Estado de São Paulo – ARTESP, o que viriam a ser os programas de prevenção de acidentes. Não havia uma programação propriamente elaborada, nem uma convergência nas ações a serem tomadas pelos grupos econômicos. Eventualmente, a ABCR foi um agente indutor, que acabou reunindo as concessionárias e criando polos de segurança. Hoje, tudo isso é muito forte, tanto no âmbito estadual como no âmbito federal. Por sinal, quando se olha para a ANTT, notamos que ela tem programas bem definidos. Não apenas os programas de segurança, como algumas premissas nos contratos, para a criação de programas específicos para tratar desta pauta. Hoje, nós temos até verba de segurança”, informou o diretor.

De acordo com ele, é uma verba dedicada, e todos os concessionários têm possibilidade de trabalhar alguns contextos que, até então, estavam apenas em discussão.

“Os pilares básicos dos contratos hoje são: segurança, conforto, fluidez e orientação. Então, segurança sempre foi uma premissa muito forte. E, para a Motiva, ela é fundamental. Um valor central. Em termos de cultura, para se ter ideia, dentro do pilar da integridade está inserido o contexto de segurança, que aponta para a responsabilidade de cuidar da segurança das pessoas, dos nossos colaboradores, dos nossos clientes, cuidar para que a sociedade para a qual prestamos serviços possa ir de um ponto a outro com segurança.”

Explicou o diretor Fausto que, citando novamente iniciativas da ABCR, em específico, referiu-se às que ela definiu como prioritárias e que serão tema de alguns painéis a serem apresentados na Bienal: o respeito aos limites de velocidade e a falta de atenção ao volante por uso de celular.

“É preciso que todos entendam que tanto o excesso de velocidade quanto a desatenção, por qualquer razão que seja, mata”, enfatizou, esclarecendo que, em sua visão, o debate da segurança não deve restringir-se apenas a gestores, comunidade rodoviária e autoridades de trânsito, mas expandir-se para toda a infraestrutura.

A TÉCNICA EM PALAVRAS: A REVISÃO DO MANUAL DE SEGURANÇA

“Quando nós olhamos para os manuais já publicados, de forma geral, muito embora alguns até tragam o que é discutido na ABNT, na comissão, em termos de tecnologia e equipamentos, o que nós notamos é que eles costumam ser muito antigos. É algo que fica mais explícito quando entramos na temática de termos itens mais atualizados na canalização, que despertem a atenção dos motoristas, para que não invadam a zona de obra e causem o sinistro mais grave.

Assim, nosso principal objetivo é fazer com que as pessoas que estão ali na rodovia trabalhando tenham um nível maior de proteção, mesmo que o motorista adentre a área por conta de influência de álcool ou etc. Cabe lembrar que intervenções de manutenção, obras de ampliação de capacidade e outras melhorias também são compromissos contratuais e, portanto, uma realidade inescapável na rodovia.

Por isso, nós procuramos maneiras de estancar o risco, por exemplo. Este fato reforçou nosso entendimento de que era necessário migrar para tecnologias de alta performance, especialmente na questão da canalização. Vamos olhar os profissionais que canalizam com bandeiras. Quando os substituímos por um robô, um sinal luminoso ou qualquer outro item que cumpra o protocolo exigido para aquela função, nós conseguimos efetivamente a eliminação do risco para aquele operador”, explicou o diretor de Operações.

AÇÕES DE ALTA HIERARQUIA

“Dentro desta ideia é que começamos a adotar o conceito de ‘ações de alta hierarquia’. Ele nasce da preocupação com uma situação de alta vulnerabilidade, que ocorre não apenas com o time que está em campo, mas também com o nosso cliente, usuário, que, por uma eventual desatenção ou imprudência, pode adentrar o canteiro.

Essa iniciativa de criar ações de alta hierarquia fez os órgãos reguladores entenderem que nós estávamos em outra condição. Assim, fomos convidados para participar de um grupo de discussão, pela própria ANTT, junto à ABSeV, Associação Brasileira de Segurança Viária, multidisciplinar e do qual também participaram outros grupos econômicos, como Arteris, Ecorodovias, Via Áppia e a própria Motiva, para debater um manual com elementos mais modernos, contemplando o nosso manual como uma possibilidade, dentro também de outras discussões. Um verdadeiro Fórum de Segurança.

Após avaliação, os outros grupos econômicos entenderam que a nossa alternativa continha o que havia de mais atualizado e com mais alta tecnologia. E começaram a abraçar a ideia. Esse manual ficou comum a todas as concessionárias e começou, inclusive, a ser discutido na ANTT como instruções técnicas”, relatou.

“Desta forma, elaborou-se um novo manual de sinalização, que é visto como um manual sólido, robusto, inserindo normativas internacionais, tanto americanas quanto europeias, que traz instruções técnicas de diversos elementos, tecnologias e orienta como criar ações de alta hierarquia”, detalhou o diretor, que exemplificou que estas ações eventualmente podem chegar ao extremo de retirada completa de tráfego próximo em intervenções programadas, quando a situação permite, a partir de vias locais ou marginais.

“A ideia é tirar totalmente o contato do nosso cliente com as nossas equipes de obra. A CET tem feito isso quando faz intervenções nas Marginais, em São Paulo. Bloqueia o site, desvia e faz um conjunto de intervenções, normalmente à noite”, exemplificou.

COMPLEMENTARIDADE ENTRE DISPOSITIVOS

Seguindo pelo tema de tratamento de risco e proteção às equipes de campo, Camilotti é adamante: “Não adianta nós focarmos em um item para estabelecer uma proteção adequada. Só uma barreira não vale. É no conjunto da utilização de um rol de materiais que nós vamos obter o resultado desejado: novas placas, novos efeitos luminosos, efeitos sonoros, barreiras pantográficas, entre outros.

Hoje, nós trabalhamos com um dispositivo de alerta instalado no colete do operador, acionado em caso de invasão da área canalizada. Para este equipamento existe um protocolo: abandono de frente por caminho seguro, em direção a ponto de encontro. Um procedimento similar ao que é adotado nas indústrias em treinamentos de incêndio. A ideia é sair com qualidade, organizadamente, retirar-se da zona quente antes que a ameaça chegue até ela. Dentro do contexto da proteção, é a estratégia mais inteligente”, informou o diretor.

“O Atenuador Montado em Caminhão, é claro, é muito importante nesse contexto. É um elemento novo, mas é mais um elemento que precisa estar associado a outras medidas. Ele é um dispositivo dentro de um envelope de segurança. E o que se fazia antes? Era colocada uma viatura, um caminhão, uma ambulância, normalmente em 45° na pista. Na prática, uma colisão entre veículos, e que causava prejuízo.

Agora, o AMC foi feito para isso. Ele amortiza o impacto, estabiliza o veículo que veio em alta velocidade e cria uma condição de segurança para quem está na frente. Mas ele é mais um elemento, precisa estar associado a outras medidas. Ele é um dispositivo dentro de um envelope de segurança”, concluiu.

AFASTE-SE

Movimento que surge de uma iniciativa americana que virou legislação, por conta de uma fatalidade ocorrida com um paramédico, e que prevê a redução de velocidade e a mudança de faixa em trechos onde há alguma intervenção, mesmo que seja um veículo em atendimento, o Movimento Afaste-se tornou-se uma ação mais ampla, que extrapolou as fileiras da Motiva.

“Todos os nossos funcionários abraçaram a ideia, outras empresas de outros segmentos e o Estado também. Tanto que estamos atuando no âmbito de um projeto de lei, para poder aplicar multa àquele que desrespeitar as ações requeridas.

O Afaste-se vem também da ideia de trabalhar o tripé da educação. Como fazer o motorista, ao se deparar com essas áreas, entender que é uma área de risco, com seres humanos trabalhando, e que, se ele não reduzir a velocidade, pode vir a perder o controle do carro ou causar uma queda por conta do deslocamento de ar.

De fato, a Motiva vem trabalhando no que é um tripé: Engineering, Education, Enforcement — engenharia, presente no manual, nas instruções técnicas, na tecnologia; educação, como no programa Afaste-se, que é conscientizar o usuário e fazê-lo compreender a situação e agir adequadamente; e, em último caso, o cumprimento da lei”, finalizou o diretor de Operações.