De semblante tímido, mas com olhar resoluto de quem resolve problemas complexos, Pedro Henrique Ramos Sales, forjado nas arcadas eternas do Direito, onde leis tecem como fios invisíveis o destino das nações e equilibram justiça com progresso, nos recebeu na sede da GOINFRA, revelando sua gestão transformadora na infraestrutura goiana, que elevou o estado ao 8º lugar no ranking CNT de rodovias, destravou obras emblemáticas como o Autódromo e o Hospital Cora, e pavimentou R$ 3,5 bilhões em investimentos para 2026, unindo teoria jurídica à execução concreta.
RodoVias&Infra: O senhor pode traçar sua trajetória profissional, destacando como transitou pelas três esferas do poder — Judiciário, Legislativo e Executivo — até assumir a presidência da Goinfra?
Pedro Sales: Nós temos experiência profissional nos três poderes, o que me proporcionou uma visão ampla e integrada do setor público brasileiro. No Judiciário, iniciei como servidor de carreira no Supremo Tribunal Federal (STF), onde atuei diretamente como assessor do ministro Luiz Roberto Barroso, lidando com questões complexas de direito constitucional e tributário, o que solidificou minha base técnica e jurídica. Sou bacharel em Direito pela Universidade Federal de Goiás, especialista em Direito Tributário e mestre em Direito Constitucional. Essa fase me ensinou a importância da interpretação rigorosa da lei em contextos de alto impacto nacional. No Legislativo, servi como assessor parlamentar do então senador Ronaldo Caiado durante seus quatro anos completos no Senado Federal, contribuindo para pautas estratégicas de infraestrutura, agronegócio e desenvolvimento regional, que plantaram as sementes para as políticas executivas posteriores.No Executivo estadual, parti da transição de governo em 2018, ocupando cargos estratégicos como na Secretaria de Administração, gerenciando recursos humanos e processos administrativos; na Codego, Companhia de Desenvolvimento do Estado de Goiás, focada em investimentos econômicos; e na Agehab, Agência Goiana de Habitação Popular, lidando com habitação acessível e urbanização. Essa progressão culminou na presidência da Goinfra em 2019, onde apliquei essa expertise diversificada para uma gestão executiva orientada a resultados. Nos credencia hoje a ter uma capacidade de articulação e diálogo com a Assembleia Legislativa, com os nossos pares secretários e outros stakeholders, essencial para destravar licitações, parcerias e investimentos massivos em infraestrutura, como os R$ 3,5 bilhões previstos para 2026 em duplicações e restaurações rodoviárias.

Quais foram as reformas estruturais implementadas na Goinfra para modernizá-la e aumentar sua eficiência?
A Goinfra passou por uma reestruturação física que é simbólica de toda a sua reestruturação institucional, iniciando com reformas completas em nossos prédios administrativos, que melhoraram a infraestrutura interna e a capacidade operacional diária. Paralelamente, implementamos reformas procedimentais e de rotinas, otimizando fluxos de aprovação de projetos, licitações e fiscalizações para reduzir burocracia sem comprometer a governança. Ampliamos o orçamento de forma robusta, com ênfase na engenharia consultiva, contratando empresas nacionais de renome para gerenciamento, supervisão e auditoria técnica, o que enriqueceu nossa capacidade em projetos complexos. Corrigimos déficits crônicos de pessoal, que chegavam a unidades técnicas abandonadas devido a aposentadorias sem reposição, por meio de concursos públicos amplos e contratações temporárias estratégicas, redimensionando e otimizando a força de trabalho para mais de 80% de diretores técnicos internos. Isso elevou nossa participação no orçamento estadual, permitindo expansão do escopo: hoje, a Goinfra não faz só rodovias estaduais, responsáveis por 22 mil km, mas também hospitais da Secretaria de Saúde, presídios da Segurança Pública, obras educacionais da Secretaria de Desenvolvimento Social, aeródromos e o Autódromo Internacional. Em 2026, com R$ 3,5 bilhões anunciados, expandimos frentes em duplicações, como GO-060 Trindade-Goiânia, pavimentações e manutenções, conforme mapa rodoviário oficial 2024, transformando a agência na grande casa da infraestrutura goiana.
Qual foi o papel do Fundeinfra nos investimentos em rodovias, e qual o motivo de sua suspensão recente?
O Fundeinfra, Fundo Estadual de Infraestrutura, foi parte fundamental dessa gestão, instituído na transição do primeiro para o segundo mandato do governador Ronaldo Caiado especificamente para intensificar obras rodoviárias de implantação, restauração e aquelas estratégicas para o setor produtivo e logístico. Ele viabilizou demandas históricas acumuladas, como pacotes de duplicações e reconstruções, alcançando 70% de execução em mais de 50 obras prioritárias, com investimentos superando R$ 863 milhões só em 2025 — valor que excede a arrecadação total do fundo até dezembro, conforme relatório oficial da Goinfra. A agência garante continuidade absoluta das obras do Fundeinfra mesmo após o encerramento da contribuição compulsória, graças à robustez do Tesouro Estadual, ampliada pelo refinanciamento de dívidas via ProPag, Programa de Regularização de Dívidas de Estados, que liberou caixa suficiente sem necessidade de novas taxas. Essa decisão, anunciada em notícia oficial da Goinfra em fevereiro de 2026, otimiza a gestão fiscal, acelera pagamentos a empreiteiras e mantém o ritmo em projetos como as duplicações GO-139/GO-213, R$ 530 milhões, e restauração da GO-309, sob fiscalização do TCE via TAG específica para o fundo, priorizando transparência e eficiência sem interrupções.
Como a gestão da Goinfra elevou o ranking da malha rodoviária de Goiás no cenário nacional, superando os desafios iniciais?
Ao assumirmos em 2019, enfrentamos uma malha na 19ª posição entre as 26 piores do Brasil pela CNT, com empreiteiras inadimplentes, obras paralisadas e desafios logísticos graves comparáveis a estados com arrecadação bem inferior, muito triste e decepcionante para um estado agroindustrial como Goiás. Superamos isso com contratações ágeis, fiscalização rigorosa e maior fatia do orçamento estadual, subindo 11 posições para o 8º lugar no ranking CNT 2025, onde 46,8% dos 7.684 km avaliados foram classificados como bons ou ótimos em critérios como pavimento, sinalização e geometria equiparável a São Paulo, malha majoritariamente privatizada, e Brasília, malha pública reduzida. Galgar uma posição dessas exige anos de recursos, contratos, brigas judiciais e muita luta técnica, mas as duas gestões Caiado entregaram avanços emblemáticos, como reconstrução da GO-184, Goiás-MS, pavimentação até Bonópolis, último município sem asfalto, e duplicações estruturantes. Projeções oficiais da Goinfra apontam para o 5º lugar nacional em breve, com R$ 3,5 bilhões em 2026 para novas frentes, conforme mapa rodoviário 2024, consolidando Goiás como referência em logística regional.
Pode detalhar projetos emblemáticos sob sua gestão, como o Hospital Cora e o Autódromo de Goiânia?
O Hospital Cora representou um desafio imenso em modelagem híbrida: executado por organização social sob nossa supervisão exclusiva, sem empreiteiro tradicional, mas com contratado privado inovador. Após amplo debate jurídico no TCE, obtivemos vitória pela constitucionalidade e legalidade pela maioria dos conselheiros, concluindo em apenas 18 meses uma unidade hospitalar de grande porte e dimensão, prestando serviços inestimáveis à população goiana em alta complexidade. O Autódromo Internacional de Goiânia, com 95% de avanço, surgiu para substituir a etapa argentina da MotoGP, cancelada pela gestão Milei, em tempo recorde de nove meses. Operamos um milagre logístico e técnico. A pista usa tecnologia inédita com polímeros específicos para grip, aderência superior às rodovias comuns, otimizada para motos em alta velocidade, desenvolvida por empresa ligada à Federação Internacional de Motovelocidade, fiscalizada e paga integralmente pela Goinfra, similar à Fórmula 1 em Interlagos, tornando-o o autódromo mais tecnológico da América Latina, segundo peritos da federação. Esses projetos integram nosso portfólio ampliado, incluindo o app Goinfra para monitoramento cidadão, edital de R$ 2,3 milhões para duplicação da GO-222 e parcerias com o Exército na GO-213.

O que representa o programa Goiás em Movimento para os municípios goianos e como ele promove a redistribuição fiscal?
O Goiás em Movimento nasce de um sentimento profundo de redistribuição fiscal intermunicipal: os incentivos fiscais estaduais geram perdas de arrecadação que desequilibram a federação, desfavorecendo prefeituras menores. Corrigimos isso com convênios de infraestrutura onde o Estado assume despesas inviáveis para gestores locais sem sacrificar políticas essenciais de saúde e educação, fazendo justiça fiscal concreta via obras. Priorizamos requalificações de vias urbanas, absorvendo custos totais para liberar verbas municipais em folha de pagamento, previdência e administração rotineira; não é mero repasse financeiro, mas serviço público custeado diretamente pelo Estado. No terceiro e quarto ano de execução, praticamente todos os 246 municípios goianos foram atendidos em rodadas sucessivas, com relatos entusiásticos de prefeitos sobre o impacto positivo. Marca indelével da Goinfra, complementa iniciativas como Movimento Seguro, lançado em 2025 para zerar acidentes graves, microrregiões de saneamento e interiorização de investimentos, fomentando desenvolvimento equânime e sustentável em todo o território estadual.
Quais ações específicas foram tomadas para melhorar a infraestrutura em rotas turísticas como Alto Paraíso, Pirenópolis e Caldas Novas?
Identificamos três polos turísticos principais — Alto Paraíso, Pirenópolis e Caldas Novas — e investimos maciçamente para elevar acessibilidade e atratividade. Em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, reconstruímos integralmente a GO-118, de Brasília até Teresina, em padrão altíssimo, com sinalização moderna, e pavimentamos com paver ecológico a Vila de São Jorge, antiga terra/lama no Parque Nacional, autorizado pelo ICMBio, beneficiando pousadas e trilhas. Em Pirenópolis, recuperamos GO-338, Planalmira, GO-431, Anápolis-Interlândia, e GO-053, além de melhorias em aeroportos locais para fluxo aéreo. Caldas Novas recebeu o maior pacote rodoviário do Estado: duplicação da GO-213, Morrinhos-Caldas Novas, até 2027, em convênio inovador com Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro, e GO-139, trevo Piracanjuba-Goiânia, com viaduto transversal na BR-153, totalizando R$ 530 milhões junto à restauração da GO-309. Essas intervenções atraem turistas de Goiânia, SP e MG, impulsionando a economia via segurança, conforto e integração logística, conforme mapa rodoviário Goinfra 2024.
De que maneira a Goinfra se consolidou como referência em compliance e governança, sob a fiscalização do TCE?
Nosso amadurecimento institucional é um prêmio direto à pressão implacável e louvável do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que elevou nossos padrões via fiscalizações rigorosas e instrumentos técnicos como o TAG específico para o Fundeinfra, definindo critérios precisos para gestão, controle e execução de projetos rodoviários financiados pelo fundo. Reformamos integralmente o laboratório de materiais rodoviários, hoje o maior do Centro-Oeste, equipado para ensaios avançados em durabilidade de pavimento, sinalização inteligente e resistência estrutural. Criamos uma diretoria dedicada de controle interno com nossos melhores auditores para pré-validação exaustiva de todos os processos licitatórios, contratuais, orçamentários e de prestação de contas, e expandimos a procuradoria jurídica de praticamente inexistente para três procuradores-chefe e 40 profissionais dedicados exclusivamente à agência. Essa equipe revisa preventivamente todas as respostas ao TCE, garantindo conformidade em tempo real e mitigando riscos jurídicos. Em 2025, colhemos frutos com três selos Diamante no Programa de Compliance Público estadual, Goiás Mais Transparente, Ouvidoria e 2ª edição de Governança, além de um Selo Ouro, e recebemos reconhecimento formal da Controladoria-Geral do Estado (CGE-GO) como peça-chave para posicionar Goiás como o estado mais transparente do país nas premiações nacionais. Aprimoramos ainda a Diretoria de Segurança Viária, herdada e fortalecida por nós, com ênfase em gestão de faixas de domínio, instalação de radares avançados, sinalização em trevos e acessos controlados, e lançamos o app Goinfra para ouvidoria cidadã ativa, permitindo denúncias, monitoramento de obras em tempo real e feedback direto da população. Essa profissionalização holística reflete nossa evolução de agência reativa para proativa, premiada em 2026 pelo PCP e alinhada à governança moderna do setor público.
A Goinfra sediará o ENACOR/RAPv em 2026. Pode detalhar esse evento e sua importância para o setor de infraestrutura rodoviária?
Estamos orgulhosos em receber a infraestrutura brasileira, de 22 a 25 de junho de 2026, em Goiânia, os três grandes eventos conjugados: o 28º Encontro Nacional de Conservação Rodoviária (ENACOR), a 51ª Reunião Anual de Pavimentação (RAPv) e a 7ª Expo ENACOR RAPv, em parceria com a ABDER, Associação Brasileira dos Departamentos Estaduais de Estradas de Rodagem, e a ABPv, Associação Brasileira de Pavimentação, com apoio institucional do DNIT, do Governo de Goiás e de empresas líderes do setor. É como se fosse a Copa do Mundo da infraestrutura e rodoviarismo brasileiro, o momento em que todo o ecossistema se reúne para debater o futuro das estradas. Esses encontros presenciais visam realizar propostas e apresentar estudos sobre infraestrutura de transportes, logística, tecnologia e trânsito, com minicursos práticos, palestras de autoridades nacionais e internacionais, apresentações de trabalhos técnicos científicos e rodadas intensas de negócios. Serão quatro dias de puro intercâmbio para cerca de 2.500 participantes de todo o Brasil e exterior, estudantes universitários, presidentes, diretores, executivos públicos e privados de empresas do ramo, em um ambiente dinâmico para trocar experiências reais e fechar contatos comerciais. Focaremos logística integrada, pavimentação sustentável, segurança viária com radares e faixas de domínio, sinalização inteligente e soluções inovadoras, com estandes da Goinfra exibindo nossas práticas em licitações ágeis e projetos como duplicações. O grande objetivo é capacitação técnica, reciclagem de conhecimento e redes proveitosas, posicionando Goiás como epicentro nacional do setor, exatamente como na nossa primeira edição, há 30 anos.
Qual a perspectiva para a infraestrutura goiana nos próximos anos, incluindo a transição para a nova gestão?
Infraestrutura é intrinsecamente intergeracional, demandando do gestor duas responsabilidades: executar a carteira do ciclo atual e estruturar a do próximo com consciência plena dessa transição vital. Deixo a Goinfra em menos de um mês com portfólio maduro e financiado, incluindo eixos prioritários como duplicação Catalão-Goiânia e GO-164, São Miguel do Araguaia-Goiânia, projetados para os próximos 10 anos. Para 2026, R$ 3,5 bilhões em novas frentes abrangem duplicações, GO-222 em edital de R$ 2,3 mi, pavimentações, como Bonópolis, restaurações, GO-060, e expansões civis. O Executivo se revelou a experiência mais rica da minha carreira: une teoria jurídica e leis à realidade palpável, exigindo relações com prefeitos, oposição, orçamentos volúveis, procuradorias e TCE, uma miríade de complexidades mais profundas que Legislativo ou Judiciário. Saio um ser humano muito maior, carregando lições de articulação e execução que beneficiarão futuras gestões em um cenário superior ao de 2019, quando chegamos aqui.
