Coluna ANETRAMS – Aoh Terra Rara, Nosso Goiás

“TERRAS RARAS” UM CELEIRO DE PRECIOSIDADE E OPORTUNIDADES

É nesse ponto que a engenharia entra no cenário, não como coadjuvante técnica, mas como engrenagem central. Porque, entre o anúncio de uma jazida e o surgimento de uma cadeia mineral competitiva, existe um longo percurso de decisões técnicas: modelagem geológica, estudos de viabilidade, engenharia de processo, projeto de planta, soluções hídricas, energia, acessos, geotecnia, gestão de rejeitos, licenciamento ambiental, programas socioeconômicos, monitoramento, automação e planejamento logístico.
O leitor comum enxerga a mina. O investidor enxerga o fluxo de caixa. Mas quem torna o projeto possível, licenciado, bancável e executável é um ecossistema de engenharia, consultoria e governança que opera muito antes de a operação aparecer no radar público.

Há outro aspecto decisivo. Goiás não está tentando se firmar apenas como exportador de concentrado. Em fevereiro de 2026, o governo estadual assinou com a UFG um acordo para criação do Centro de Ciências e Tecnologia Mineral, com investimento previsto de R$ 28 milhões, destinado a fazer do estado referência em pesquisa e processamento de minerais. O gesto tem peso simbólico e prático. Simbólico, porque indica a ambição de internalizar conhecimento. Prático, porque terras raras são uma cadeia em que tecnologia de separação, domínio químico e capacidade de transformação industrial importam tanto quanto a existência da ocorrência mineral. Sem conhecimento aplicado, o minério sai; o valor vai com ele.

A agenda das terras raras também revela uma oportunidade extraordinária de desenvolvimento do conhecimento humano e técnico no país. Isso porque a cadeia desses minerais não se esgota na existência da jazida nem na simples etapa de extração: ela exige domínio de processos complexos que vão da geologia e da mineração ao beneficiamento, à separação química, à purificação, à transformação industrial e, por fim, à consolidação em produtos de alto valor agregado. Trata-se, portanto, de um campo que demanda articulação entre diferentes saberes científicos, tecnológicos e de engenharia.

O Brasil, embora disponha de relevante potencial mineral, ainda não domina de forma plena todas as técnicas críticas dessa cadeia, especialmente aquelas associadas ao processamento avançado e à agregação de valor. Justamente por isso, o tema deve ser lido não apenas como oportunidade econômica, mas como imperativo de aprendizagem, capacitação e construção de autonomia científica e industrial. No fim, a identificação de uma jazida de mineral raro não representa apenas a descoberta de um ativo geológico de alto valor. Ela inaugura, em verdade, a possibilidade de formação de um mercado inteiramente novo para a engenharia nacional, com desdobramentos que alcançam a geologia, a mineração, o beneficiamento mineral, a engenharia química, a engenharia ambiental, a infraestrutura logística, a implantação industrial, a gestão hídrica, a energia, a automação, o licenciamento e a pesquisa aplicada.

Cada etapa compreendida entre a percepção da ocorrência mineral e sua conversão em produto final exige inteligência técnica acumulada, soluções de engenharia sofisticadas e capacidade de coordenação entre múltiplos saberes. Em outras palavras, a jazida não cria apenas riqueza mineral: ela abre uma fronteira de trabalho, especialização, inovação e adensamento produtivo para empresas brasileiras de consultoria, projeto, supervisão, tecnologia e implantação.

Essa oportunidade, contudo, só se converterá em benefício efetivo para o setor produtivo nacional se for orientada por uma visão estratégica de interesse de Estado. Não basta permitir a extração de um recurso cuja importância cresce no mundo inteiro; é indispensável assegurar que essa riqueza crítica contribua para estruturar cadeias produtivas internas, fortalecer empresas nacionais, ampliar a formação de conhecimento técnico-científico no país e estimular a agregação de valor em território brasileiro.

Se a terra rara for tratada apenas como commodity de saída, o país poderá até participar do mercado, mas continuará periférico naquilo que mais importa: o domínio das etapas de maior complexidade tecnológica e de maior valor econômico. Diante desse cenário, torna-se indispensável acender o alerta para as inevitáveis interferências e para a disputa de interesses que acompanham a emergência de mercados estratégicos como o das terras raras.

Trata-se de um setor que, por sua relevância global, atrai capital, tecnologia e influência internacional, muitas vezes em condições assimétricas frente à capacidade instalada nacional. Por isso, a construção dessa nova cadeia produtiva no Brasil deve ser acompanhada de uma postura atenta e propositiva, capaz de assegurar que a abertura ao investimento externo não se traduza em fragilização do mercado interno.

É necessário proteger e fortalecer as empresas nacionais — em especial aquelas ligadas à engenharia, à tecnologia e à indústria — para que possam competir em condições minimamente equilibradas com grandes grupos internacionais. Ao mesmo tempo, impõe-se o dever de fomentar o desenvolvimento do conhecimento local, formando especialistas, com investimento em qualificação de mão de obra, consolidando competências técnicas e antecipando as exigências de um setor que tende a se expandir rapidamente nos próximos anos.

E, por fim, é preciso investir em assessoria técnica, planejamento e projetos para que tenhamos a efetividade, em curto prazo, das oportunidades do celeiro de negócios que será o nosso Goiás. Mais uma vez, nosso chão goiano fazendo história e diferença para o mundo.

As terras raras pertencem claramente a essa segunda categoria. Em torno delas se reorganizam cadeias industriais, estratégias de transição energética e disputas silenciosas por autonomia tecnológica.