Wellington Dias – Ministro do Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome

Piauí: do pior para o melhor

Por quatro vezes apontado pela vontade popular como líder do Executivo piauiense, o atual ministro Wellington Dias tem suas origens firmemente associadas à base produtiva do tecido social. Uma vivência – que ele faz questão de orgulhosamente destacar – que se deu desde tenra idade, na estrada e dentro da boleia do caminhão dirigido por seu pai, Joaquim de Félix, personalidade que, mais do que nomear o anel viário de São João do Piauí, instilou em um então jovem aspirante a político, eleito vereador de Teresina pela primeira vez em 1993, a visão de que o desenvolvimento e o progresso somente fazem a prosperidade girar se tiverem uma boa rodovia para rodar. É a partir desta percepção intrínseca de que infraestrutura, mais que projeto de engenharia, é projeto de promoção social, que o também senador pelo Piauí gentilmente concedeu a entrevista que o leitor de RodoVias&Infra acompanha a partir daqui.

RodoVias&Infra: A sua história é uma história que se confunde com a de muitos brasileiros, nascidos e criados na estrada – o que ajuda em parte – a explicar a grande tradição rodoviária do país.

Wellington Dias: É, meu pai realmente trabalhou muito no transporte da nossa região. Costumava carregar muito algodão, cabeças de gado e, ocasionalmente, os mangaieiros, que no Nordeste são os comerciantes que participam em dias de feira em diversos municípios. Como os produtos, que podiam ser qualquer tipo de facilidades, utensílios para a casa, cozinha e outras atividades cotidianas, eram conhecidos como “mangaio”, eis que eles se tornaram assim conhecidos por esse comércio. E as viagens não eram feitas com veículo novo não. Era com um caminhão dos antigos, um velho Ford, mas que dava conta do recado. Então, quando eu trabalhei no planejamento para o desenvolvimento do Piauí, eu tinha a clareza de que o desenvolvimento passava por várias etapas, que incluem as infraestruturas, sejam elas de saneamento, energia e, naturalmente, as de transporte. Nós atuamos também muito fortemente na melhoria da educação, na evolução da educação, onde éramos o pior estado colocado neste quesito no país, mais ou menos quando foi lançado o “Brasil Alfabetizado”. Hoje, o Piauí é o quarto melhor desempenho do Brasil na educação. Também buscamos investir pesado em áreas relacionadas ao aumento da expectativa de vida – saúde, saneamento, acesso à água potável –, que também melhoraram muito. Mas persiste e existe a importância, para o Piauí, de trabalhar a integração modal de seus transportes. Não deixamos de lado os modais ferroviário, hidroviário e aeroportuário, mas a maior demanda, como em muitos estados do Brasil, é o rodoviário. O Piauí tinha as piores estradas do país e a maior quantidade de cidades sem asfalto: de 224 municípios, somente 66 tinham rodovias asfaltadas. Hoje, nós somos um dos oito estados do país que têm 100% dos municípios conectados por via pavimentada. Desde o primeiro governo do presidente Lula, também tivemos uma ampliação em nossa malha. Demos um salto de 1.600 km para 8.600 km de rodovias estaduais. Nós montamos uma estratégia de integração, de conectar a trechos já asfaltados cidades que estavam a 10, 15, 20 km de distância. Isto tem um impacto muito forte não só na qualidade de vida, mas no desenvolvimento. A rodovia que chega a uma área que possui potencial para a agropecuária, por exemplo, se desenvolve. E isto se aplica à área que tem vocação turística, para a mineração – e, neste caso, somente funciona se houver integração com outros modais, como o ferroviário, como a Transnordestina, que tem esse objetivo de integrar as regiões de mineração, de calcário, ferro e outros minerais. Mas a rodovia, a energia, dentre todas as outras infraestruturas, são as que mais têm impacto imediato para a população.

Se por um lado o senhor mencionou o aumento da malha, por outro, nós sabemos que isto cria uma enorme pressão por manter esse patrimônio, o que demanda investimento e recursos. Como o Piauí tem lidado com estas “dores do crescimento”?

No ano passado, o Piauí foi considerado o melhor estado do Nordeste, nos termos de ICM (Índice de Condição de Manutenção), com 80% de sua malha considerada boa ou ótima. Neste ano, em setembro, nós atingimos 90%, ficando no primeiro lugar do Brasil, de acordo com dados do DNIT. Nós saímos, de verdade, do pior para o melhor. É uma malha significativa, mas é também uma malha muito bem conservada. E isso exige muito planejamento, muito esforço, muita dedicação e uma sintonia entre setor público, privado, a bancada federal e, claro, ações concertadas, com muito empenho do presidente Lula, do ministro Renan Filho, do corpo diretivo do DNIT, da competência da equipe da Superintendência Regional e da equipe estadual. Tudo isso permite que tenhamos projetos capazes de disputar os recursos e, com isso, ir completando a nossa malha. Ainda temos trechos a fazer, como a integração com o Maranhão, o Ceará, Pernambuco, com a Bahia, as primeiras integrações com o Tocantins. Ações que têm a expectativa de favorecer todos os setores da economia. É bom para o comércio, para a indústria, para a produção de alimentos, para o turismo. Isto fez com que o Piauí saltasse de um PIB de R$ 7,6 bilhões em 2022 para os atuais próximos de R$ 70 bilhões. No governo anterior, do presidente Bolsonaro, nós tivemos – no Nordeste inteiro, mas mais fortemente no Piauí – um completo abandono da conservação da malha. Todo mundo reclamava da buraqueira. Eu vi ministros comparando a saúde das rodovias à saúde bucal. Uma cárie não tratada evolui para um canal, uma inflamação séria. E o custo do tratamento aumenta de acordo com essa gravidade de quadro. E é claro que nós sabemos que rodovias boas, bem sinalizadas, se revertem em menos acidentes, menor custo para os produtos, menos tempo de percurso e, no final das contas, uma melhoria sensível na competitividade. Em termos de investimentos, em 2022, tínhamos no orçamento destinado à manutenção, pelo DNIT, R$ 80 milhões. Em 2023, nós chegamos a R$ 300 milhões. E isto foi fundamental para alcançar as melhorias já citadas no ICM.

Não é difícil imaginar que, com estas taxas superiores de crescimento, também passou a haver uma maior demanda quanto à mobilidade na capital do estado, que acaba sendo um ponto de convergência?

Este foi um passo natural. Depois de oferecermos as condições para as rodovias do estado como um todo, centramos o foco em Teresina, especialmente nos quesitos de melhoria de mobilidade urbana, com rebaixamento, contornos, alças de acesso. Bom, Teresina era uma cidade, uma capital, que não tinha rodovias duplicadas, muito embora o volume de veículos, pesados e de passeio, já fosse muito elevado. E nós tivemos que fazer as primeiras intervenções neste sentido com recursos do próprio estado. Agora, com o presidente Lula, estamos tendo a oportunidade de trabalhar as duplicações em todas as direções: no sul, com a BR-316; ao norte, com a BR-343; e isto é uma mudança que também se traduz em maior qualidade de vida. Teresina tinha muitas filas de veículos para acessá-la, retenções, congestionamentos. Levava-se mais tempo na espera para entrar na capital do que na viagem em si para chegar até ela. E é importante falar não apenas em melhoria de qualidade de vida, mas na preservação das vidas, salvar vidas pela redução da acidentalidade. Lembro que tínhamos aqui a BR-135, que era chamada de “rodovia da morte”, um cenário tenebroso, onde mesmo o veículo de salvamento, a ambulância, tinha dificuldade de chegar por conta do mau estado da rodovia. Então, investir nas rodovias não é um investimento só econômico. Se colocarmos em perspectiva, é um investimento que indiretamente é na saúde, que tem tudo a ver com a qualidade de vida de que nós falamos. É um investimento que inclusive influencia muito a arrecadação. Imagina como era, para os governos municipais, estadual e federal, a arrecadação com um PIB de pouco mais de R$ 7 bilhões, para um cenário que é de praticamente dez vezes esse tamanho. É isso o que acontece quando se prioriza investimentos em áreas estratégicas.

Vamos falar um pouco da sua atuação em Brasília, da sua pasta de Desenvolvimento, que é voltada a temas bastante sensíveis e aos desafios que ela tem que vencer.

Por incrível que pareça, eu faço uma associação direta entre os investimentos do Ministério dos Transportes, do DNIT, da infraestrutura, com as populações mais pobres. Tenho lá no Ministério quatro grandes missões dadas pelo governo do Brasil, através da confiança do presidente Lula: primeiro, a necessidade de termos uma verdadeira indignação com um país que é a décima maior economia global, entre os dez mais ricos, o quarto maior produtor de alimentos do mundo e que tem 33 milhões de pessoas sob a sombra da fome. A imagem que marcou o Brasil e o mundo deste fato é a imagem dos Yanomamis, emaciados e mortos pela fome. E não apenas eles, como podemos presumir pelo número. Essa foi a primeira missão, abraçada pelo presidente Lula desde sua primeira presidência, e um caminho onde nós conseguimos um feito extraordinário, que ocorreu entre 2013 e 2014, que era tirar o Brasil do mapa da fome, algo que foi perdido, mas que nós conseguimos voltar a fazer outra vez, de acordo com o que foi atestado pela FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), entre 2023 e 2024. Na verdade, tirar o Brasil do mapa da fome era uma obsessão do presidente, que mais do que ninguém sentiu na pele o que é a fome e a insegurança alimentar. Mais do que isso, a continuação dessa missão é preciso reduzir a miséria e a pobreza. Não é apenas dar o peixe, é ensinar a pescar, garantir os instrumentos para pescar. Assim, olhando o campo, olhando a cidade, através da qualificação profissional das pessoas que estão no Cadastro Único Social (CadÚnico), destacadamente no Bolsa Família, nós temos buscado garantir esses instrumentos. São mais de 18 milhões de pessoas do Bolsa Família e do CadÚnico que, entre 2023 e hoje, celebraram um contrato de trabalho. Então, o Brasil está crescendo, a economia está crescendo, temos um saldo positivo de empregos. De 4,7 milhões de novos empregos gerados a mais em relação a 2022, 83,3% foram preenchidos por pessoas do CadÚnico, do Bolsa Família. Então, o povo quer trabalhar, mas também quer um emprego decente. E ainda, neste aspecto de ensinar a pescar, nós temos encaminhado pessoas para o empreendedorismo, apoiando-as para que iniciem seus pequenos negócios. Incentivar o pequeno produtor, o pequeno comércio, o mercadinho. Ajudar ao que se formou em odontologia a montar seu consultório, o que se formou em direito a abrir seu escritório, a manicure a abrir seu salão de beleza, o mecânico a abrir sua oficina. Nesta perspectiva, o resultado vem muito forte. Se por um lado tivemos essa oferta extra de 4,7 milhões de vagas, foram, por outro, no período de 2023 para cá, 11 milhões de novos negócios abertos, sendo 4,5 milhões desses novos CNPJs abertos de pessoas que vieram justamente do CadÚnico e do Bolsa Família, que abriram seus MEIs e pequenas empresas. O resultado de tudo isso é que reduzimos a miséria de 9% para 4%, um feito que o Brasil jamais tinha conseguido alcançar. O mais baixo, na série histórica, era 5,2%. Reduzindo ainda a pobreza de 37% para 20%, alcançando outra baixa histórica. Foram 14 milhões de brasileiros tirados da linha da pobreza, uma parte deles inclusive ingressando na classe média. É a filha da empregada doméstica que virou médica, o filho do agricultor que virou técnico agrícola, agrônomo.

O filho do operário que vira técnico, encarregado de obra.

É isso. É uma mudança que interrompe de forma segura uma história de pobreza. E para sair da pobreza, além de ajuda, a pessoa precisa da educação, muito presente e muito forte. Daí essa integração do Bolsa Família e outros programas sociais com a saúde e a educação. Não se pode deixar ninguém para trás. É associar esses programas com desempenho escolar, adesão, notas, vacinação, habitação. Tudo isso são esforços complementares. Nós alcançamos o mais baixo índice de desigualdade nas metrópoles, de acordo com o Índice Gini, que registrou 0,534, no qual quanto mais perto de 1 maior a desigualdade e quanto mais perto de zero menor. Na verdade, este índice hoje está em 0,506, mas nós queremos que ele baixe ainda mais. De 0,5 para baixo, já começa-se a ficar em paridade com países desenvolvidos, mas claro, nós queremos baixar esse número cada vez mais. Matar a fome não é um fim em si, é um começo. E o Brasil virou um modelo de sucesso. Veja que foi o Brasil quem liderou a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, um conjunto que hoje une mais de 200 países. O Brasil entra em um momento forte com este fato, quer seja na COP30, nos BRICS ou no Mercosul, perante toda a comunidade internacional, com grande credibilidade, ao mesmo tempo em que consegue ampliar exportação e estreita suas relações com o mundo, em uma liderança que não apenas é referência em combate à fome e à pobreza, mas de combate às mudanças climáticas, que atua em prol do multilateralismo, que compreende que um país precisa do outro. E é um protagonismo que o Brasil há muito não tinha. Isso também certamente contribui com a autoestima da população e reforça a importância do voto, que é onde se tem a oportunidade de demonstrar esta vontade por mais chances de inclusão no mercado de trabalho, melhor qualificação. E o Piauí é um espelho deste fenômeno de melhoria que eu tenho verificado ao andar pelo Brasil.

Já que o senhor mencionou a retomada de um protagonismo do Brasil frente às relações internacionais, como o senhor avalia o fato de o Brasil sediar a COP30?

E no coração da floresta tropical amazônica, em Belém do Pará. Algo que muitos duvidaram e até mesmo trabalharam contra para que não acontecesse, e especialmente para que não acontecesse em Belém, porque diziam que não era possível sediar lá este grande momento do mundo. E, no entanto, o Brasil realizou a maior COP de todas as que ocorreram na história, recebendo mais de 60 mil pessoas das diversas delegações e mais cerca de 200 mil pessoas dos vários países do mundo que dela vieram tomar parte. Também esta foi a melhor organizada. Falavam que não funcionaria, desde a hospedagem ao trânsito, e o que vimos foi que tudo funcionou. Uma COP que, com todos os desafios, alcança resultados históricos, como a que está sendo chamada de “Declaração de Belém”. Este é um documento que mantém a pactuação feita na COP29, no Azerbaijão, e que traz ainda algumas inovações. Entre elas, uma na qual eu trabalhei muito, que foi a de que, junto à Aliança Global do presidente Lula, termos o compromisso de colocar o ser humano no centro das atenções para as mudanças climáticas. Afinal, esses fenômenos cada vez mais extremos sempre afetam os mais pobres. E por isso mesmo, a aprovação, na mesma declaração, de trabalhar de forma integrada as políticas e os fundos ambientais e sociais junto à área econômica. Também incluímos nela o conceito de “floresta produtiva”, onde, ao recuperar uma área degradada, trabalhando com plantas alimentares e base para cosméticos ou fármacos, seja possível integrar os povos nativos e mais vulneráveis ao manejo, desde a coleta de sementes, produção de mudas, viveiros, plantações e acompanhamento. Dessa ideia, nós teremos florestas com açaí, guaraná, cacau, café, cupuaçu, mas uma floresta que, além do resultado de tudo de bom que uma floresta pode trazer do ponto de vista de seus serviços ambientais, gera riqueza e renda diretamente para estas pessoas que ajudaram a colocá-la de pé e que passarão a viver de sua preservação. E isto inclui, claro, a destinação de um terço dos créditos de carbono obtidos pelo sequestro de carbono da área justamente para essa população nativa. Aí merece destaque o Fundo TFFF – Tropical Forest Forever Facility, o “Fundo de Florestas Tropicais para Sempre”, um fundo que, no final das contas, paga pela manutenção da floresta em pé, algo que havíamos tentado em Copenhague, mas que agora, com a liderança do presidente Lula, virou uma realidade. Mas o Ministério está trabalhando lá em Belém com suas equipes, participando das mais de 19 plenárias de forma muito atuante. Sem dúvida, este é um esforço que entrará para a história.