MODERNIZAÇÃO E EXPANSÃO DA INFRAESTRUTURA RODOVIÁRIA NO ESTADO
O Piauí atravessa um período de transformação histórica em sua infraestrutura rodoviária. Sob a liderança experiente do superintendente Ribamar Bastos, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) no estado tem coordenado uma série de projetos estruturantes que prometem revolucionar não apenas a mobilidade regional, mas todo o panorama de desenvolvimento econômico e social do território piauiense. Com mais de duas décadas de experiência em gestão pública e engenharia rodoviária, Bastos tem implementado uma visão estratégica que combina eficiência operacional, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental. Em entrevista exclusiva, o superintendente detalha os principais investimentos, desafios superados e conquistas que marcam esta nova era da engenharia rodoviária piauiense.

RodoVias&Infra: Falando especificamente de Teresina, quais são os principais projetos de transformação urbana em andamento na capital e como eles vão impactar a vida dos teresinenses?
Ribamar Bastos: Teresina é nosso laboratório de inovação urbana e foco prioritário dos investimentos. Começamos com o rebaixamento da BR-343 na Avenida João XXIII, onde tínhamos uma rotatória que processava mais de 20 mil veículos por dia — um volume absolutamente incompatível com a infraestrutura existente. Investimos R$ 46 milhões do novo PAC, concluímos em agosto de 2024 e eliminamos os congestionamentos, melhoramos a fluidez do trânsito e devolvemos qualidade de vida aos usuários. Mas o projeto mais transformador é o contorno rodoviário de Teresina, iniciado em dezembro de 2024 e dividido em três lotes. O lote 1 vai da Ladeira do Uruguai até a ponte sobre o rio Poti — 5,22 quilômetros com R$ 136 milhões para triplicação completa, transformando uma pista simples em quatro pistas. Este trecho inclui quatro viadutos: três ferroviários na fase final e um rodoviário na entrada do Dirceu, que hoje está em execução. O lote 2 é uma nova ponte sobre o rio Poti com 450 metros e R$ 45 milhões. O lote 3 completa o sistema até a Avenida Miguel Rosa, mais 2,02 quilômetros e R$ 65 milhões. O impacto será revolucionário: redução drástica nos tempos de deslocamento, menor consumo de combustível e redução da poluição.
O projeto do Contorno Sul parece ser extremamente ambicioso e visionário para o futuro de Teresina. Pode nos explicar como ele vai funcionar e qual seu impacto na região metropolitana?
O Contorno Sul é o projeto mais visionário que já concebemos para Teresina. Este projeto vai literalmente mudar a cara da nossa capital e criar condições para desenvolvimento urbano sustentável pelos próximos 30 anos. Hoje, todo o tráfego pesado que se dirige ao Norte do país atravessa obrigatoriamente o centro de Teresina e Timon. São milhares de carretas diariamente disputando espaço com o trânsito urbano, criando uma situação insustentável. Nossa solução é uma rodovia de 29 quilômetros que pega na BR-316, na altura do rodoanel estadual, passa sobre o rio Parnaíba com uma ponte de 600 metros e conecta com o contorno de Timon. Quando estiver funcionando, teremos uma alternativa completa para o tráfego pesado. As carretas vão contornar as duas cidades, eliminando o conflito entre tráfego urbano e de passagem. O impacto será revolucionário na qualidade de vida, segurança e desenvolvimento urbano. Como sempre digo: fazendo esse contorno, Teresina vira um “brinco”. Teremos 30 anos para crescer com tranquilidade, pois só teremos automóveis no centro urbano. Estamos na fase de projeto executivo, com investimento estimado em R$ 354 milhões. A ponte sobre o Parnaíba será o componente mais complexo — 600 metros de vão livre sobre um rio federal —, mas será o símbolo da integração definitiva entre Piauí e Maranhão.
Uma das novidades mais interessantes é a inovação tecnológica com pavimentação em concreto no trecho Teresina–Altos. Quais as vantagens desta tecnologia?
A pavimentação em concreto é uma tecnologia nova para o Piauí e uma das inovações de que mais me orgulho. Estamos implementando no trecho Teresina–Altos, 20,76 quilômetros com R$ 198 milhões. As vantagens são extraordinárias: enquanto um pavimento asfáltico tem vida útil de 10 a 15 anos, o pavimento de concreto pode durar 30 a 40 anos com manutenção mínima. Isso significa economia gigantesca a longo prazo. O concreto suporta cargas maiores sem deformação e oferece menor resistência ao rolamento, reduzindo o consumo de combustível dos veículos. No projeto Teresina–Altos, a pista existente receberá 21 centímetros de concreto, e a nova pista também será integralmente em concreto. Faremos um whitetopping na pista existente, aplicação de concreto sobre o asfalto existente, após o término da implantação da nova pista. Estamos sendo pioneiros no Piauí e criando um modelo que pode ser replicado em outras regiões. O principal desafio é a execução: o concreto exige perfeição desde o primeiro momento, não há margem para erro. Estamos trabalhando com empresas especializadas e equipamentos específicos para garantir qualidade internacional.
A BR-316 é uma das principais rodovias que conecta Teresina ao interior do estado. Como estão os avanços nesta importante via e qual sua estratégia de implementação por segmentação?
A BR-316 é nossa espinha dorsal rodoviária. Já concluímos a duplicação Teresina–Demerval Lobão, 20,16 quilômetros finalizados em 2023 com R$ 90 milhões, incluindo duas pontes e três passarelas. As passarelas são fundamentais porque esta rodovia corta comunidades rurais onde pedestres precisam atravessar com segurança. Estamos aguardando a ASV (Autorização de Supressão de Vegetação) para o próximo trecho: Demerval Lobão a Monsenhor Gil, mais 22,06 quilômetros. A empresa já está mobilizada. Paralelamente, licitamos o projeto Monsenhor Gil até a Estaca Zero, mais 24 quilômetros. A segmentação é nossa estratégia-chave, com vantagens múltiplas: é muito mais fácil conseguir aprovação para um projeto de R$ 100 milhões do que para um de R$ 500 milhões. Obras menores são mais fáceis de gerenciar, causam menos transtornos ao usuário e permitem ajustes técnicos entre segmentos. Esta estratégia tem dado tão certo que já se tornou referência para outros estados. Recebemos visitas técnicas de superintendências interessadas em replicar nossa metodologia.
Superintendente, falando sobre a ponte da BR-330, recentemente inaugurada. Qual a importância desta obra para o estado e como ela se insere no contexto de desenvolvimento regional?
Esta ponte representa muito mais do que uma simples obra de engenharia – ela é um marco de integração regional e um símbolo da retomada dos investimentos federais em infraestrutura. Localizada estrategicamente na divisa entre Ribeiro Gonçalves, no Piauí, e Tasso Fragoso, no Maranhão, ela eliminou definitivamente um gargalo histórico que há décadas prejudicava o desenvolvimento econômico de toda nossa região. Para você ter uma dimensão do problema que enfrentávamos: tínhamos uma balsa privada que cobrava valores abusivos – cerca de R$ 300 por carreta, R$ 1,50 por pedestre, valores proporcionais para motos e bicicletas. Imagine o impacto disso na economia local! Um caminhoneiro que transportava produtos agrícolas da região tinha que desembolsar R$ 300 apenas para atravessar o rio, sem contar o tempo perdido – a balsa transportava apenas duas carretas por vez e levava meia hora para fazer a travessia. A ponte, com seus 123 metros de extensão em concreto armado, custou R$ 102 milhões e foi inserida no novo PAC. É importante destacar que esta obra foi iniciada em abril de 2023 e concluída em julho de 2025, sendo inaugurada no dia 5 de setembro com a presença do ministro Renan Filho. O licenciamento ambiental foi estratégico: retiramos a ponte do contexto do projeto maior da BR-330 e conseguimos delegação de competência para o órgão estadual, que conhece melhor as especificidades locais. Conseguimos todas as licenças em tempo recorde, demonstrando que transparência e qualidade técnica transformam órgãos ambientais em parceiros, não obstáculos.

A BR-330 faz parte de um projeto muito mais amplo de transformação do corredor de desenvolvimento regional. Pode nos explicar como esta rodovia vai transformar a região e qual sua importância estratégica?
A BR-330 é, sem exagero, um dos projetos mais transformadores da história recente do Piauí. Estamos falando de uma rodovia que vai de Bom Jesus passando por Currais até Tasso Fragoso-MA, totalizando 233 quilômetros de pura integração regional. Esta rodovia conecta o sul do Piauí, região de forte vocação agrícola, aos mercados do Maranhão e aos portos do Nordeste. Fizemos um convênio estratégico com o Estado e dividimos a obra em dois lotes. O lote 1 tem 62,94 quilômetros em CBUQ com 10 centímetros de espessura. O lote 2 vai até a ponte que construímos, totalizando 114,44 quilômetros. O investimento total é de aproximadamente R$ 800 milhões, com prazo de execução de três anos. O impacto econômico será imenso. Com uma rodovia de qualidade, os custos de transporte caem drasticamente, tornando a produção local mais competitiva. Isso atrai novos investimentos, gera empregos e desenvolve toda a cadeia produtiva regional. Implementamos também programas de educação ambiental e criação de oportunidades de emprego local, garantindo que esta obra não apenas conecte fisicamente a região, mas também promova desenvolvimento social sustentável.
A transformação da BR-135 de “rodovia da morte” à melhor estrada do estado é impressionante. Pode nos contar como foi este processo e quais lições podem ser extraídas desta experiência?
A BR-135 é nossa maior história de sucesso. Esta rodovia era conhecida nacionalmente como “rodovia da morte”, e hoje posso afirmar com orgulho que é nossa melhor estrada. São 430 quilômetros de Eliseu Martins a Corrente, na divisa com a Bahia, que estavam em estado deplorável. O Estado fazia apenas manutenção precária: pista de 6 metros sem tratamento dos acostamentos. Com dois invernos sem manutenção, criavam-se degraus de até 47 centímetros entre a pista e o acostamento. Entre 2015 e 2017, morreram 50 pessoas por defeitos da pista. Quando assumimos em 2018, paramos os contratos inadequados e redesenhamos a estratégia. Dividimos em três lotes, fomos à bancada federal com dados chocantes dos acidentes e conseguimos R$ 160 milhões. Alargamos toda a rodovia para 12 metros, refizemos drenagem, corrigimos curvas perigosas. Entre 2022, 2023 e 2024, tivemos zero acidentes por defeito da pista. Zero! Transformamos uma “rodovia da morte” na nossa melhor estrada do Piauí. As lições principais: diagnóstico preciso, articulação política baseada em dados técnicos, monitoramento contínuo e sustentabilidade da manutenção.
A manutenção parece ser um aspecto fundamental de sua gestão. Como está estruturado este trabalho de preservação do patrimônio rodoviário e qual a filosofia por trás desta estratégia?
A manutenção é um dos pilares fundamentais de nossa gestão. Temos 30 contratos cobrindo nossa malha de quase 3 mil quilômetros, incluindo 6 contratos do BR-LEGAL. Nossa filosofia é simples: é muito mais barato manter uma rodovia em bom estado do que reconstruí-la depois que se deteriorou. Adotamos contratos por preço unitário, que permitem usar até 50% da área em serviços não previstos inicialmente – alargamento de acostamentos, correção de drenagem, melhorias de segurança. O investimento saltou de R$ 100 milhões anuais até 2022 para R$ 300 milhões de 2023 para cá – três vezes mais recursos. Demonstramos capacidade de execução e sensibilizamos o governo federal para a manutenção preventiva. Nosso ICM (Índice de Condição de Manutenção) estava em 52 quando assumimos – situação crítica. Hoje chegamos a 90, considerado excelente. Esta evolução é resultado de uma estratégia consistente e bem executada. Desenvolvemos monitoramento em tempo real com a PRF, identificando problemas antes que se tornem críticos.
Como está a situação das obras de arte especiais – pontes e viadutos – do estado e qual a estratégia de conservação deste patrimônio construído?
Temos 181 obras de arte especiais em nossa malha, e a maioria tem entre 40 e 50 anos de idade, exigindo cuidados especiais devido ao envelhecimento das estruturas. Desenvolvemos um programa abrangente baseado em critérios técnicos rigorosos, classificando todas em notas de 1 a 5. Na região norte, identificamos cinco pontes com notas 1 e 2 que exigem intervenção imediata: três na BR-402 (rios Camurupim, Ubatuba e Várzea) e duas na BR-343 (rios Santo Antônio e Piracuruca). Após três licitações fracassadas, decretamos situação de emergência para reabilitar essas pontes através de processo emergencial. Temos projeto especial para a ponte do rio Poti em Teresina (650 metros), cartão postal da cidade. Dividimos o estado em quatro lotes com empresas especializadas para inspeção regular. Uma trinca no concreto que hoje custa R$ 1.000 para reparar pode se transformar em problema de R$ 100.000 se não tratada adequadamente. Este sistema se tornou referência nacional, recebendo visitas técnicas de outros estados interessados em replicar nossa metodologia.
O programa BR-LEGAL tem sido uma marca importante de sua gestão na modernização da sinalização e segurança. Como está a implementação no estado e quais os resultados alcançados?
O BR-LEGAL transformou completamente o padrão de segurança e sinalização de nossas rodovias. Temos seis contratos ativos cobrindo 85% da malha rodoviária. Nossa estratégia foi sequencial: primeiro restauramos 100% das rodovias principais, depois implementamos sinalização horizontal, vertical e defensas metálicas. Encontramos um lapso de dois a três anos sem manutenção adequada após o programa anterior (2019-2021). Muitas rodovias tinham sinalização apagada, defensas danificadas e falta de placas informativas. Hoje temos rodovias com padrão de sinalização internacional, defensas adequadas, placas informativas claras. O programa inclui sinalização horizontal e vertical, defensas metálicas, dispositivos de drenagem e obras de arte especiais. Temos dados objetivos: redução de 60% nos acidentes por defeito de sinalização, diminuição significativa no tempo de resposta a emergências. Cada componente tem impacto específico – sinalização horizontal reduz invasão de pista, placas adequadas evitam manobras perigosas, defensas salvam vidas em saídas de pista.
Como vocês conseguiram criar eficiência nos processos de licenciamento ambiental e desapropriação, tradicionalmente gargalos em obras de infraestrutura?
Conseguimos transformar dois dos principais gargalos da infraestrutura brasileira em processos eficientes. No licenciamento ambiental, construímos relação de confiança com os órgãos ambientais através de projetos de alta qualidade e cumprimento rigoroso das exigências. Conseguimos licenças em tempo recorde – algumas em menos de dois meses quando o prazo legal é de três meses. Nossa filosofia: apresentando projeto tecnicamente correto e ambientalmente responsável, os órgãos ambientais se tornam parceiros, não obstáculos. Nas desapropriações, nossa estratégia é transparência total e comunicação constante. Desenvolvemos uma metodologia que se tornou referência nacional. Estabelecemos múltiplos canais de comunicação – WhatsApp, telefone direto, reuniões presenciais. Explicamos detalhadamente todo o processo, oferecendo duas opções: aceitar o valor do DNIT administrativamente ou discordar e ir à Justiça. Esta transparência desarma os expropriados – eles sabem o que esperar e sentem-se respeitados. Nas 79 desapropriações da BR-235, 68 foram pagas administrativamente. Apenas 11 tiveram pendências por questões documentais. O segredo é tratar cada expropriado como cidadão que merece respeito e informação, não como obstáculo a ser removido.

Superintendente, como o senhor avalia este momento da infraestrutura rodoviária do Piauí e qual sua visão de futuro e legado?
Estamos vivendo o melhor momento da história da infraestrutura rodoviária do Piauí. Nunca tivemos tantos recursos, tantos projetos simultâneos e uma visão tão clara de futuro. O trabalho desenvolvido representa transformação sem precedentes, com investimentos superiores a R$ 1,5 bilhão. A estratégia de segmentação, inovação tecnológica com pavimentação em concreto, relacionamento transparente com comunidades e eficiência nos processos demonstram gestão moderna e eficaz. O Contorno Sul, quando concluído, será o coroamento desta transformação, posicionando Teresina como hub logístico estratégico do Nordeste. Com rodovias de qualidade, pontes modernas e segurança aprimorada, o Piauí constrói bases para desenvolvimento sustentável e integração regional. A visão é clara: quando implantarmos esse contorno de Teresina, teremos 30 anos para crescer com tranquilidade. Teresina vai virar um brinco. Esta é a promessa de uma infraestrutura que não apenas conecta lugares, mas transforma vidas e impulsiona o desenvolvimento de todo um estado.
