Luciana Dutra, Presidente do Conselho da ANETRAMS

O embaixador da infraestrutura

Mulher, jovem, inserida em um universo eminentemente masculino, frequentemente composto por experientes engenheiros e empresários, com muitas décadas de mercado. Luciana Dutra, presidente do Conselho da Associação Nacional, contudo, pode e deve ser considerada como a face de uma renovada engenharia consultiva do país, dividindo com ela, diversas prerrogativas: dinâmica, contemporânea, focada em soluções e atenta à transversalidade de temas que afetam o bom resultado da inteligência. Pouco mais de uma década à frente da instituição que ajudou a talhar, a Associação Nacional das Empresas de Engenharia Consultiva de Infraestrutura de Transportes – ANETRAMS, a presidente juntou-se à RodoVias&Infra, para uma retrospectiva, avaliar expectativas e, talvez, o mais importante, dividir perspectivas sobre o setor que vive de pensar, não apenas um país. Mas uma nação melhor.

RodoVias&Infra: Sua história em boa monta se confunde com a atuação da ANETRAMS, uma vez que a senhora a lidera há dois terços de sua existência e, como bem destacou em sua preleção de abertura das celebrações de 15 anos, coincidentemente os mais desafiadores anos atravessados pelo país. Qual foi o contexto de sua chegada à Associação, e os principais fatos ocorridos durante esta sua significativa presença na liderança?

Luciana Dutra: Quando olho para a trajetória da ANETRAMS, não a enxergo apenas como uma instituição, mas como um organismo vivo que amadureceu junto com o próprio país. Minha chegada à Associação ocorreu em um momento em que o Brasil buscava reencontrar sua identidade no campo das grandes obras, diante de sucessivas transformações políticas, econômicas e jurídicas que impactaram profundamente o setor de infraestrutura. Havia, naquele contexto, uma demanda clara por fortalecimento institucional, por voz técnica qualificada e por uma entidade que pudesse articular diálogo entre Estado, mercado e sociedade. Foi nesse cenário que assumi a missão de contribuir para a ANETRAMS — e, desde então, vivi com ela os anos mais complexos e reveladores de nossa engenharia consultiva. Durante este período, enfrentamos desafios que moldaram não apenas a Associação, mas também a própria compreensão do país sobre planejamento, governança e responsabilidade técnica. Assistimos a uma reconstrução do marco legal de contratações públicas, à consolidação de novas exigências de integridade, à discussão de modelos de avaliação técnica, ao avanço das agendas climáticas e socioambientais, e à necessidade de recompor a confiança entre o setor público e o privado após anos de turbulência. A ANETRAMS esteve presente, om firmeza, em cada um desses capítulos. Se hoje a ANETRAMS celebra 15 anos, celebramos também a consolidação de uma visão: a de que o Brasil precisa de instituições maduras, de técnica respeitada e de integridade como fundamento. É isso que guiou minha presença na liderança nesses anos tão desafiadores — e é isso que continuará orientando cada passo que damos. A história da ANETRAMS é, antes de tudo, a história do amadurecimento institucional da engenharia consultiva brasileira. E é uma honra ter contribuído para esse capítulo que ainda está sendo escrita.

Historicamente nós sabemos que o Brasil, de modo geral, não possui – ou ao menos não possuía – propriamente uma “Cultura de projetos”, ainda que pese, em seu favor, o fato de estarem presentes no país projetistas e empresas consultivas que inclusive, constituem um “produto de exportação” considerável. Ao longo de sua atuação na ANETRAMS, qual sua avaliação acerca da evolução dessa perspectiva?

De fato, o Brasil sempre conviveu com uma contradição curiosa: possuímos alguns dos melhores projetistas e consultores do mundo, reconhecidos internacionalmente, mas historicamente carecemos de uma verdadeira cultura de projetos no âmbito das políticas públicas. Isso significa que, por muito tempo, o país insistiu em começar pela obra antes de começar pela inteligência, e isso sempre cobrou seu preço. Ao longo da minha atuação na ANETRAMS, pude testemunhar uma transformação significativa nessa percepção. A sociedade, os órgãos de controle e o próprio Estado passaram a compreender que planejamento técnico não é etapa acessória, mas a espinha dorsal de qualquer empreendimento que deseje ser eficiente, seguro e sustentável. Investir em prevenção, diagnóstico e planejamento não apenas reduz riscos e incertezas, mas constitui a forma mais responsável e precisa de assegurar a correta aplicabilidade dos recursos públicos. Quando o país planeja bem, ele gasta menos, erra menos e entrega mais. Hoje, fala-se em qualidade de projeto, em exequibilidade, em matriz de risco, em estudos robustos, em governança e em engenharia consultiva como fundamento, não como luxo. Esse amadurecimento é resultado de um esforço coletivo, e a ANETRAMS esteve ao lado de instituições públicas, da academia e de parceiros estratégicos para reforçar essa consciência. Ainda há caminho a percorrer, mas avançamos rumo a uma visão mais madura: a de que um país que planeja bem, executa melhor — e de que a engenharia consultiva é o instrumento que transforma intenção em realidade. A consolidação de uma cultura de projetos é, antes de tudo, a consolidação de um país que escolhe pensar antes de construir.

A longo da linha do tempo de existência da atuação da ANETRAMS, o país assumiu uma série orientações políticas que resultaram em diferentes impactos, não apenas para o segmento consultivo, como para todo o ecossistema de infraestrutura. Aproveitando do tema do Fórum promovido pela própria Associação, quais as principais perspectivas e expectativas, para os próximos anos e, em específico, para o ano eleitoral que se avizinha?

O Brasil vive ciclos políticos intensos, e cada um deles deixa marcas profundas na forma como estruturamos nossas políticas de infraestrutura. O que observamos, ao longo desses anos, é que a engenharia consultiva tem sido cada vez mais chamada a ocupar um papel de racionalidade e continuidade em meio às mudanças de orientação governamental. Isso é um sinal inequívoco de amadurecimento institucional. Para os próximos anos, e especialmente diante de um ano eleitoral, a nossa perspectiva é dupla. De um lado, existe um cenário de grande expectativa pela consolidação de marcos regulatórios recentes, como a Nova Lei de Licitações, as diretrizes de governança, a agenda climática e a incorporação definitiva de critérios técnicos na formulação de políticas públicas. De outro, sabemos que momentos eleitorais trazem volatilidade, e é justamente nesse ambiente que a ANETRAMS cumpre sua função mais estratégica: defender estabilidade, previsibilidade e planejamento. E é aqui que reside uma das grandes urgências do país: o Brasil precisa de um Plano Nacional de Contratações de Infraestrutura que seja política de Estado — e não produto da alternância política. Sem uma carteira permanente de projetos, sem continuidade administrativa e sem visão estratégica de longo prazo, continuaremos presos ao improviso, desperdiçando recursos e oportunidades. A correta aplicabilidade do recurso público começa no planejamento, na prevenção e na inteligência técnica, e não na tentativa de ‘corrigir no meio da obra’ o que deveria ter sido previsto no princípio. A infraestrutura não pode oscilar ao sabor das disputas políticas. Ela exige visão de país, exige continuidade e exige responsabilidade técnica. O que esperamos, e pelo que trabalhamos, é que o próximo ciclo reafirme essa compreensão, fortalecendo a engenharia consultiva como base estruturante do desenvolvimento brasileiro. Mudam-se governos, mas não pode mudar o compromisso com o planejamento. A engenharia consultiva é o elo de continuidade entre o presente e o futuro do Brasil.

É preciso destacar uma mudança significativa que houve em relação às exigências de compliance, de transparência e governança, responsabilidade socioambiental, e, mais recentemente, diante dos eventos climáticos cada vez mais extremos, do conceito de infraestruturas resilientes. Como estes temas foram
acessados (como por exemplo na proposta de lei de projetos contra desastres no âmbito dos municípios) e como a ANETRAMS exerceu um protagonismo no sentido de preparar seus associados para estas novas
exigências e, simultaneamente, participar da composição deste novo paradigma consultivo e construtivo?

Nos últimos anos, vivenciamos uma inflexão importante na forma como o país enxerga a infraestrutura. Compliance, governança, responsabilidade socioambiental e resiliência climática deixaram de ser agendas periféricas e passaram a ocupar o centro do debate público — e isso provoca uma transformação profunda
na engenharia consultiva. A ANETRAMS atuou desde cedo para que seus associados estivessem preparados para esse novo paradigma. Participamos de discussões legislativas, como as propostas relacionadas à prevenção de desastres em âmbito municipal, defendendo que projetos bem elaborados, estudos de risco e planejamento
territorial são instrumentos essenciais de proteção à vida. Também promovemos diálogos técnicos, seminários e capacitações voltadas à incorporação das melhores práticas de governança, integridade e avaliação socioambiental. Mais do que acompanhar as mudanças, buscamos influenciá-las. Nossa atuação institucional ajudou a consolidar a compreensão de que infraestrutura resiliente não é apenas uma resposta aos eventos climáticos extremos, mas uma obrigação ética do Estado e das empresas diante da sociedade. E que a engenharia consultiva, por sua natureza analítica e preventiva, é o principal vetor dessa transformação. “A nova era da infraestrutura é guiada pela integridade, pela ciência e pela responsabilidade com o território. A engenharia consultiva é quem traduz esses princípios em decisões que salvam vidas e constroem futuro.

Mencionamos a preparação dos associados, e evidentemente que parte disto se dá por meio de seminários simpósios de fóruns. Desta forma, sabemos que, também a Associação desempenha um papel importante e que extrapola aspectos legais e regulativos, avançando quanto à divulgação de melhores práticas, adoção de novas tecnologias e mesmo melhoria e qualificação profissional. Como tem sido o exercício deste outro prisma da ANETRAMS?

A ANETRAMS compreende que a atuação institucional não se encerra na esfera normativa. Pelo contrário, nossa missão inclui cultivar um ambiente de aprendizagem contínua, disseminação de boas práticas e estímulo à inovação, porque a engenharia consultiva só cumpre plenamente seu papel quando se mantém intelectualmente viva e tecnicamente atualizada. Nesse sentido, ampliamos significativamente nossa agenda de eventos, fóruns, seminários e espaços de formação. Esses encontros têm sido fundamentais para aproximar os associados das discussões mais avançadas sobre métodos construtivos, tecnologias digitais, avaliação de riscos, governança, modelagens de concessão e resiliência climática. Também promovemos trocas estruturadas com especialistas, órgãos de controle, universidades e centros de pesquisa, de modo a garantir que o setor esteja alinhado com as melhores referências nacionais e internacionais. Essa dimensão educativa da ANETRAMS é, hoje, um dos nossos maiores diferenciais. Ela fortalece a capacidade técnica das empresas, qualifica profissionais e contribui diretamente para a melhoria da qualidade dos projetos e da execução das políticas públicas. Quando compartilhamos conhecimento, elevamos o padrão do setor como um todo, e um país só cresce quando também cresce a sua capacidade de pensar, projetar e inovar.

Ainda tangenciando a mesma questão: como a ANETRAMS tem, ao longo do tempo, construído sua sólida relação com a academia e instituições de formação profissional como a Escola Politécnica da USP, UnB entre outros organismos que estão também muito focados em pesquisa, desenvolvimento e mesmo o aprimoramento metodológico e sistêmico, que impactam diretamente a forma como o mercado consultivo permanece atualizado e mesmo à frente do que há de mais moderno?

A relação da ANETRAMS com a academia é um dos pilares mais estratégicos da nossa atuação. Sempre entendemos que a engenharia consultiva só se fortalece quando caminha ao lado da ciência, da pesquisa aplicada e da inovação metodológica. Por isso, ao longo dos anos, construímos uma ponte permanente entre as empresas associadas e instituições de excelência, como a Poli/USP, a Universidade de Brasília e diversos centros de pesquisa espalhados pelo país. Essa aproximação não é protocolar; ela é profundamente estruturante. A academia nos desafia a repensar modelos, incorpora novas tecnologias, amplia a capacidade de análise e antecipa tendências que moldarão o futuro da infraestrutura. Ao mesmo tempo, o setor consultivo contribui para que o conhecimento científico dialogue com a realidade das políticas públicas, dos territórios e dos desafios concretos da execução. Esse intercâmbio constante — de ideias, metodologias, soluções digitais e práticas inovadoras — permite que nossos associados se mantenham não apenas atualizados, mas posicionados à frente das transformações que impactam o mundo da engenharia, como resiliência climática, modelagens avançadas, digitalização e avaliação de risco sistêmico. Quando aproximamos engenharia consultiva e academia, unimos a experiência prática à capacidade científica. É desse encontro que nasce o futuro da infraestrutura brasileira.

Outro ponto neste sentido: como a ANETRAMS tem contribuído para oferecer oportunidades de melhoria de qualificação de mão de obra, por meio dessas parcerias, inclusive com a própria academia?

A qualificação da mão de obra é um eixo central da missão da ANETRAMS, porque entendemos que nenhum país avança em infraestrutura sem investir na formação contínua de seus profissionais. Nesse sentido, nossas parcerias com universidades, escolas de engenharia, centros de pesquisa e especialistas têm sido fundamentais. Por meio desses acordos institucionais, ampliamos o acesso dos associados a cursos, programas de capacitação, estudos técnicos e metodologias contemporâneas que dialogam diretamente com as transformações do setor. Priorizamos temas como gestão de risco, resiliência climática, modelagem avançada, inovação digital, governança, compliance e planejamento integrado — competências que hoje definem a qualidade da engenharia consultiva. Além disso, promovemos fóruns, workshops e trilhas formativas que permitem que engenheiros, gestores e especialistas se atualizem de forma constante. Essa aproximação estruturada entre academia e mercado consultivo tem gerado um
ambiente de aprendizagem que fortalece não apenas as empresas, mas também a própria capacidade do Brasil de conceber projetos mais inteligentes, seguros e sustentáveis. Formar pessoas é formar futuro. A qualificação profissional é o alicerce invisível das obras que construirão o Brasil de amanhã.

Mais do que isso, como esta relação com a academia é positiva para a competitividade e influencia a qualidade do serviço final dos associados? Neste contexto entraria, por exemplo, a pauta de fomentar as empresas de engenharia consultiva a participarem mais ativamente nas concessões, mesmo enquanto integrantes de consórcio, no papel de fiscalizadoras?

A relação com a academia não é apenas uma fonte de atualização metodológica — ela é um diferencial competitivo.
Quando as empresas de engenharia consultiva dialogam com centros de pesquisa, incorporam inovação, refinam suas práticas e ampliam sua capacidade de análise, elas elevam substancialmente o padrão dos serviços entregues ao país. Esse movimento fortalece todo o ecossistema, porque qualidade técnica gera segurança, previsibilidade e eficiência no ciclo completo das obras públicas. Além disso, essa aproximação amplia a habilidade das empresas
de atuarem em novos arranjos institucionais, como concessões, PPPs e modelos híbridos. A participação mais ativa da engenharia consultiva nesses instrumentos — inclusive como fiscalizadora, em consórcios ou parcerias estruturadas — traz ao processo uma camada indispensável de rigor técnico e independência crítica. Isso melhora a governança, reduz riscos e garante que os investimentos privados e públicos estejam ancorados em estudos consistentes. Quando unimos competitividade, conhecimento científico e governança inteligente, conferimos ao Brasil uma capacidade muito maior de formular políticas públicas sustentáveis e de executar projetos com maturidade. A academia amplia a fronteira do saber; a engenharia consultiva traduz esse saber em soluções
concretas. Dessa parceria nasce um país mais competitivo, mais seguro e mais preparado para o futuro.


Outro ponto importante, como evidenciado pela forte presença de parlamentares nas celebrações de aniversário, são as relações da Associação com os representantes do povo brasileiro. Como tem sido esta dinâmica?

A relação da ANETRAMS com o Parlamento é uma dimensão essencial de nossa atuação institucional. Sempre entendemos que a engenharia consultiva cumpre um papel estratégico na formulação de políticas públicas, e por isso buscamos um diálogo permanente, republicano e profundamente técnico com os representantes do povo brasileiro. Essa dinâmica tem se fortalecido ao longo dos anos, porque os parlamentares reconhecem, cada vez mais, que decisões legislativas relacionadas à infraestrutura, ao planejamento e às contratações públicas exigem escuta qualificada. A presença expressiva de deputados e senadores em nossas celebrações é reflexo de uma relação construída com base em confiança e responsabilidade — não em interesses particulares, mas no compromisso comum com o desenvolvimento nacional. Nosso papel é oferecer subsídios técnicos, apontar riscos, propor soluções e contribuir para que o país tenha marcos legais mais maduros, mais estáveis e mais alinhados às melhores práticas internacionais. E fazemos isso de forma apartidária, porque infraestrutura é agenda de Estado, não de governo. Quando Parlamento e engenharia consultiva convergem, o país avança. Diálogo responsável é o caminho para políticas públicas mais sólidas e para uma infraestrutura que honre as futuras gerações.

Institucionalmente falando, a Associação tradicionalmente é um ponto de referência para diversos atores que buscam melhor entendimento da técnica, especialmente no sentido de melhorar a performance das ações do poder público. Assim como a ANETRAMS vê e contribui com as entidades fiscalizadoras (órgãos ambientais e entidades correlatas) e de controle (as cortes de contas, como o próprio TCU), e, talvez o mais importante, como a senhora percebe a evolução dessas relações até o momento atual do país?

A relação da ANETRAMS com os órgãos e fiscalização e controle, sejam ambientais, regulatórios ou de controle externo, é pautada por um princípio fundamental: o interesse público é um compromisso compartilhado. A engenharia consultiva e as entidades de controle não ocupam lados opostos de um processo; ao contrário, são
parceiros que atuam para garantir que políticas públicas sejam planejadas, executadas e auditadas com rigor técnico, segurança e responsabilidade. Ao longo dos anos, construímos uma relação madura e transparente com o TCU, com órgãos ambientais e com estruturas fiscalizadoras estaduais e federais. Temos participado de debates, contribuído com análises técnicas, oferecido subsídios metodológicos e dialogado abertamente sobre práticas que
promovam qualidade e evitem riscos sistêmicos nas contratações públicas. O que observamos hoje é uma clara evolução: os órgãos de controle estão cada vez mais abertos ao diálogo técnico, reconhecendo que decisões de alta complexidade exigem conhecimento especializado e compreensão profunda dos processos de engenharia. Por sua vez, a engenharia consultiva tem buscado aprimorar suas próprias práticas para atender a padrões cada vez mais elevados de governança, integridade e qualidade técnica. Essa evolução demonstra que quando Estado e técnica se aproximam, o país ganha eficiência, previsibilidade e obras mais seguras. Controle não é barreira — é garantia. E a engenharia consultiva é parceira natural desse propósito.

Já que nós falamos em contribuições, notadamente, a Associação tem estado no epicentro de pautas absolutamente relevantes para o bom funcionamento da engenharia consultiva e da infraestrutura em geral. Estamos falando aqui da Lei 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações) e mais recentemente, da Reforma Tributária,
que inclusive contou em um painel apresentado pela ANETRAMS com a presença do renomado especialista em direito tributário, Menndel Macedo. De que forma a instituição buscou oferecer insights no sentido de melhorar a forma destes textos e/ou aprimorar suas regulações?


A atuação da ANETRAMS em temas estruturantes, como a Nova Lei de Licitações e a Reforma Tributária, tem sido profundamente técnica e orientada pelo compromisso com o futuro da infraestrutura brasileira. Em ambos os casos, buscamos oferecer análises qualificadas que pudessem contribuir para textos legais mais coerentes, mais eficazes e mais alinhados à complexidade do setor. Nosso propósito sempre foi o mesmo: fortalecer a segurança jurídica, reduzir ambiguidades interpretativas e proporcionar previsibilidade aos agentes públicos e privados. Na
discussão da Lei 14.133/2021, nossa contribuição se concentrou na defesa de pilares essenciais: critérios técnicos adequados, exequibilidade, governança, controle do subpreço, qualificação das equipes e respeito à natureza intelectual da engenharia consultiva. Atuamos junto a parlamentares, órgãos de controle e equipes técnicas para demonstrar que serviços de alta complexidade exigem modelos de contratação que privilegiem a qualidade, e não
apenas o preço. A segurança jurídica, nesse contexto, nasce do alinhamento entre norma, técnica e prática — e foi exatamente isso que defendemos. Já no debate da Reforma Tributária, trabalhamos para evidenciar os impactos diretos sobre a engenharia consultiva, especialmente no que diz respeito à cumulatividade, ao equilíbrio competitivo e à necessidade de regimes que reconheçam a especificidade das atividades técnicas. A presença de
especialistas em nossos painéis reflete justamente essa abordagem: queremos que o país faça escolhas tributárias que estimulem o desenvolvimento, e não que criem distorções ou inviabilizem setores estratégicos. Regras claras, estáveis e aplicáveis são o alicerce de qualquer política de desenvolvimento. Em ambos os temas, nossa atuação não foi reativa, mas propositiva. Levamos estudos, pareceres, comparativos internacionais e análises jurídicas que
auxiliaram decisões públicas a compreenderem a complexidade das escolhas que estavam sendo feitas. Ao contribuir com aprimoramentos normativos, a ANETRAMS cumpre uma função essencial: ajudar a construir um ambiente seguro, previsível e tecnicamente responsável para as contratações públicas brasileiras. Regulações bem
estruturadas constroem países. Por isso, nossa contribuição é sempre no sentido de fortalecer marcos legais que honrem a técnica, a transparência e o interesse público, e que assegurem ao Brasil a segurança jurídica necessária para avançar.

Entre as maiores premissas da Associação estão as suas contribuições ao país, sempre enaltecidas por todos os seus integrantes. Sendo assim, que mensagem a engenharia consultiva tem para o Brasil, nesta efeméride tão especial, que são os 15 anos de sua existência?

Aos 15 anos da ANETRAMS, a mensagem da engenharia consultiva ao Brasil é, ao mesmo tempo, simples e profunda: não existe desenvolvimento sustentável sem planejamento, sem técnica e sem responsabilidade institucional. O país vive desafios imensos — climáticos, urbanos, logísticos, sociais. E diante deles, a engenharia consultiva oferece algo que nenhuma outra atividade consegue entregar com a mesma precisão: a capacidade de transformar incertezas em soluções, riscos em segurança, e visões em projetos tangíveis que moldam o futuro das cidades e dos territórios. Nossa mensagem, portanto, é um convite e um compromisso. Convidamos o Brasil a valorizar a inteligência técnica como fundamento das escolhas públicas. E reafirmamos nosso compromisso de atuar com integridade, rigor científico, visão socioambiental e profundo respeito ao interesse público. A engenharia consultiva não constrói apenas obras — ela constrói confiança, constrói legado e constrói civilização. Que os próximos anos sejam marcados por ainda mais diálogo, maturidade e ambição técnica. Porque um país que planeja bem, executa melhor. E a engenharia consultiva é a guardiã desse planejamento.